Programa “BSP” na TV

As apresentadoras Pri Carenzio e Chris Oliveira apresentam um divertido programa sobre as balzaquianas!

Participação de convidadas especiais !

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Drinks, baladas, fofocas, amizades, romance e aventuras!

o seriado

“Sou balzaquiana! Trintona! Hum, será que estou ficando velha!? Adoro minha profissão, minha independência, minha liberdade. Estou querendo emagrecer, claro! Preciso comprar roupa, perfumes, maquiagem, já! Ah, e creme para as primeiras ruguinhas!…Ops!Adoro salto alto! Quero também um amor, pois cansei dos cafas de plantão e quero sossegar! E enquanto não encontro, vou pra balada e bebo todas. Danço, danço, danço! Sou uma típica cinderela do século XXI!”(Agatha)

Episódio Um (Primeira Temporada)

Balada, fim-de-semana!

Ligo o carro acelerada. A marcha da primeira engata para uma quarta. Preciso chegar a tempo, afinal, como sempre, estou atrasada. O pessoal combinou às 23h15 na pracinha, e já são 23h20. Bem, em 15 minutos devo chegar lá.

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Hum, sinto-me extraordinariamente excitada! Não no sentido literal da palavra, mas na generalidade que o sentimento evoca. Talvez, hoje, seja uma grande noite. Talvez, à despeito da maré de todo fim-de-semana, esta seja uma balada especial. Talvez eu encontre “aquele” cara. Talvez eu conheça um homem que se apaixone loucamente por mim à primeira vista e que me trate feito princesa. Princesa!? À propósito, posso não mais me intitular como tal, pois à beira dos meus 30 anos, confesso que me enquadro certamente na figura balzaquiana com ares de rainha.

Idéia inexata!

Meu nome é Agatha, de origem alemã. Vislumbrando minha face deveras bondosa, boa, como o próprio nome diz, deram-me tal título. No entanto,  calo-me diante do significado. Sim, sei que sou boa…mas, sinto-me às vezes de certo demoníaca. Na verdade, me enoja ser boa demais. Eu deveria ser má. A trivialidade, o comodismo e a mesmice da “bondade” é algo cansativo, rotineiro. Mas, o que posso fazer? Aos quase 30 anos, confesso que nunca matei ninguém(risos sarcásticos).

Continuando….me chamo Agatha, e alguns me chamam de Gha. Estou com 29 anos, quase terminados! Seria este um dos motivos da minha atual e infinita tristeza? Sim, caro leitor! Os “vinte” chegaram ao fim, e dentro de 5 dias, farei os 30. Que desolação! Não somente pela idade em si, pois sei que a fatalidade dos primeiros fios brancos já desponta em minha testa. Mas, pela situação em si – esta é a que pega. Estou entrando na terceira década total, completa, geral…e todos os “mente”, solteira. E nada da minha história ser daquelas trintonas enxutas já divorciadas, como muitas das minhas amigas. Sou daquelas que já se considera rainha, sem ter sido ao menos princesa. Princesas se casam jovenzinhas com seus principezinhos encantados. Aos 22 já são até mamães! Não, definitivamente, meu passado não engloba tal capítulo. Aos 22, 25, 29, e agora aos 30, continuo na casa das disponíveis, às vezes eternas, pois o andar da carruagem só corre às pressas quando as primeiras ruguinhas despontam em meus olhos. Fazer o que!? O certo é o mesmo ditado, seja lá em qual século for. Aquele papo das “modernóides”, ou ainda, “mulheres do século XXI que só querem curtir e mais nada” é conversa furada. Ao contrário da vovó, temos profissão, somos independentes, mas é certo que conservamos o véu e a grinalda ainda em nossas gavetas, à espera do seu primeio momento. E palco para a procura do “príncipe” existe para tudo! Mas, há sempre um contrasenso.

E é assim todo o fim de semana. Por volta das nove da noite, interrompo a novela das oito ou o seriado de TV já pensativa sobre qual modelito usar. Cansada? Sim, estou. Mas ficar em casa!? Impossível. Sou viciada, assim como todas as bonecas – minhas amigas baladeiras de plantão. É assim que eu as chamo! Bonecas, Bonecas! No decorrer das letras, você, leitor, irá entender. Voltando, qual modelito usar? Nossa, já repeti dezenas de vezes as roupas e algumas nem me servem mais. Imagino que os olhares da balada me fitam e clamam: “nossa, essa aí não tira essa roupa!”.

Idéia inexata!

Tenho comido demasiadamente. Os meus quadris largos, minha barriguinha saliente e meu peito tamanho PP denunciam meu formato pêra levemente acima do peso. Hum, é sempre muito fatigante encontrar a roupa correta. Que seja a calça preta de plantão! Assim meu quadril avantajado fica às escondidas. Jogo um tom claro na parte de cima, meus seios crescem milagrosamente e pronto! Um saltinho básico. Alías, como sempre, preciso emagrecer! Mas, por hoje não. Balada, sem beber, esquece. É como comer chocolate diet, banana verde ou chupar bala com papel. Mas, segunda-feira tomarei aquela decisão! Ou perco 5 quilos ou ficarei dias e noites sem colocar os pés para fora de casa, como penitência.

São estes os pensamentos que me embriagam no caminho para a balada- entretenimento certo, garantido e único para quem é solteiro. Mas, antes, claro, buscar a Vanessa. Amiga de longa data e baladeira de plantão, mais uma boneca assumida. Toco a buzina, ela demora a aparecer sempre por uns 5 minutos, mas beleza, fico no carro procurando algum som dos anos 80, 90, afinal, preciso me aquecer.

E lá vem ela, a boneca toda na passarela. Hum, já a vi com essa calça, mas nunca com essa blusa. É certo que ela hoje está querendo mostrar os seios. Está louca para pegar!

-“Oi amigaaaaa!”- diz ela, perfumada, maquiadérrima, entrando no carro, super animada.

Mas, antes que eu prossiga tal diálogo, permita-me a uma melhor apresentação.

Como dito, chamo-me Agatha, a talvez “boa”(risos sarcásticos), e estou para fazer 30 anos. Sou uma boneca assumidíssima, assim como as outras das baladas. Sei que o leitor deve estar com uma interrogação em sua mente, mas, cá estou aqui para esclarecê-la. Somos, à noite, todas bonecas. Nos enfeitamos feito bonecas, cabelos, maquiagem, roupa, e nos vestimos todas iguais, praticamente. Somos produzidas em série na fábrica: bonitas, super arrumadas, e disponíveis, totalmente disponíveis nas vitrines. E qual seria a melhor vitrine? A balada, claro! É lá que as bonecas deixam a roupa séria de trabalho do dia de lado, produzem-se com sensualidade, colocam a sombra preta para arrasar, chegam com ares de fatal, mas no fundo no fundo, querem mais é serem levadas para a casa, por algum príncipe mágico. E ainda somos como bonecas, pois vivemos na prateleira, ora saindo, ora voltando para a estante. Tudo depende de como eles, os homens e as circunstâncias, vão querer brincar conosco. A instabilidade homem-mulher dos dias de hoje é o pano de fundo. E assim, as bonecas fazem a festa. E há tudo quanto é tipo de boneca: boneca que está sempre na virtine só para ser observada, boneca que adora sair da estante o tempo todo, boneca que adora ser comprada por aquele gato que possui um super carro, boneca que não faz questão de absolutamente nada…etc….

Seria este um discurso feminista? Não, caro leitor, creio que a resposta é negativa. Em 2009, a superficialidade ao mesmo que intensidade das noites das ficadas, drinks e fofocas impera. E para completar, além das bonecas, existem alguns bonecos também para falar a verdade. Mas, ao final, a máxima fica sempre exposta: “aquilo é mulher de balada né!?”….ou, “ora bolas, aquilo é cara de balada né!? Nunca ele vai te levar a sério!”.

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Furor Balada Nights

….mas, de forma branda e poética! O furor do álcool me soltava, a paixão me dominava e a música penetrava em minhas entranhas, como cordas de um violão em uma canção de infinitos refrãos. Sentia-me uma completa orquestra. E neste enlevo, sentia-me total balada naquela especial noite. Era tempo do ritmo, das danças, das esferas na pista e do brilho do cenário! Era o momento da entrega ao maior contentamento: a arte de estar, de dançar, de sorrir, de viver, de amar, de beijar. Não havia tempo de mais nada. Passado ou futuro inexistiam! Apenas uma vontade de soltar o próprio corpo junto ao ritmo alucinante…No deleite, meu corpo mexia com velocidade e sincronismo…era a dança…era a vodka…eu era total som-groove-dance…

Dicionário nas mãos! Som nos ouvidos! Vida! Festa e aventuras! E neste compasso, criei meu diário de histórias: “Boneca solteira procura…”

Um brinde a nós, as Bonecas Balzaquianas!

EPISÓDIO 2

My Birthday – pré

Vinte e sete de março! É hoje o dia do meu aniversário…fatídico aniversário, digamos assim. Infeliz idéia! Porém, surpreendente. A deprê básica e ansiada para tal irrompeu logo ao nascer do sol, quando vislumbrei a primeira fenda de luz driblando os contornos da janela, vindo a banhar meu lençol. Entretanto, embora a façanha do ávido avançar da idade tenha me tomado o fôlego, uma inspiração divina me pegou de surpresa. A melancolia do calendário “30 primaveras” me propôs um brinde, como um presente de aniversário. Sentia-me triste, claro, básico, tipo inevitável, afinal, meus vinte foram total embora. Ninguém está muito preparado ou a fim de se despedir dos seus vinte, principalmente as mulheres, em especial, as solteiras como eu. Mas, o dia começou claro na janela e assim, senti-me sutil e estranhamente animada com aquela data. Estava de certo fazendo 30 anos! Estava absolutamente sendo apresentada ao mundo das famosas balzaquianas, porém estava mais madura, mais mulher.

Sou quem sou e nada pode me impedir. Agora sou muito bem crescida e darei satisfações somente a mim mesma!”- falei ao meu Ego, olhando-me no espelho da penteadeira e das vaidades essenciais da condição humana, descabelada, com olhos de quem acabou de acordar.

Bingo! Antes da balada à noite, vou fazer uma tatoo e colocar um piercing. Sempre fui reservada nesse sentido, principalmente à pedido de minha mãe. Mas, desculpe-me platéia! Agora tenho 30 anos e vou “mutilar” ou “colorir” meu corpitcho da forma que eu bem desejar.

Falando em piercing, naquela manhã me lembrei de algo bizarro do meu passado obscuro dos vinte e poucos anos. Todas as mulheres têm sempre algo bizarro para se lembrar. Sabe aqueles casos que todo mundo fica sabendo porque você entra em desespero na época e seu celular pós-pago passa da conta dos R$500,00 pra cima de tanto você repetir a história a todos pelo telefone(como se alguém pudesse oferecer um conselho milagroso!), mas que passados alguns anos, você MORRE total só de ter sido a protagonista da história!? Pois bem, na idade dos vinte e poucos, apaixonei-me perdidamente por um velho dinossaurico, como dizia minha amiga Vanessa. Ou ainda “caquético”, “pinto murcho”,como ela sempre argumentou. Então, lembro-me do cinqüentão e eu com vinte e pouquinhos, e nossa, de repente, bateu a crise no famoso “velho” de cabelos brancos. E, caro leitor, você nem imagina! O cara, na crise de meia idade colocou um piercing na sobrancelha. Imagine, leitor, um velho de cabelos totais brancos e com um piercing lá, quase no meio da testa. Bizarrice absoluta aos corredores do fanatismo à juventude eterna! E não se tratava de um velho alternativo, do tipo Rolling Stones. Era um senhor certinho e tal, mas que da noite para o dia, colocou um piercing. Quando eu o vi, mesmo apaixonada, afe, quase desmaiei diante da contemplação máxima do Ridículo personificado, lá na minha frente. Credo!

Bem, mas nesta idéia, olhei-me ao espelho e pensei:

Será que eu vou ficar parecida com aquele velho se eu colocar um piercing!?”- refleti.

“Nãoooo!”- respondeu meu Ego, ainda dizendo que eu não tinha cinqüenta e poucos anos, mas ainda trinta…Deus, na hora me deu até certo alívio. E é claro, os brancos, alguns deles, já moravam na minha cabeça, mas ainda alguns anos aconteceriam a fim de tomar todo o topo, como uma guerra ou uma bomba atômica.

Falando em corpo-corpitcho, o jejum da semana passada valeu a pena. Propósito conquistado! Para eu A-R-R-A-S-A-R na festa do meu aniversário, minha barriga tinha que estar menor de qualquer maneira, assim como a minha bunda. A saladinha de segunda a sexta-feira foi um óh, quase desmaiei, mas vou caber no tubinho preto um número menor. Ah, e tomara que o Márcio, super gato, vá. Preciso que ele vá! Ainda não entendo porque ele me liga há oito meses, e nunca assume nada comigo. Mas, de hoje, não passa! A certeza de um sucesso concreto, final feliz, faz meu coração saltar desde a manhã. Se bem que a dúvida permeia meus pensamentos, afinal, sou uma de suas bonecas, certeza. Mas, quem sabe a noite de aniversário traga o inédito como garantia, como presente de aniversário!? Nada está certo e o destino está para ser escrito.

Quem diria!? Eu com pensamento positivo.

Por volta das oito da noite, super cedo, comecei a me enfeitar. O dia foi corrido. Os telefonemas da família, dos amigos e da clássica frase “você está conservada” fizeram meu cérebro tremer. Mas, todas que fazem 30, acabam por ouvir isso, e devo estar completamente preparada, pois acabo de me adentrar na fase daqueles parentes que começam a te apresentar caras divorciados. Clássico balzaquiano!

-“Oi Tia Marluce, tudo bem com a senhora?!”-falei, atendendo correndo o telefone, secando as unhas pintadas de rosinha claro.

-“Tudo minha querida, Agatha….estou te ligando para te dar aquele super beijo e um parabéns bem gostoso!”

-“Puxa, tia, muito obrigada. Estou ficando velha, mas(risos), obrigada por ter lembrado!”

-“Quanto anos querida?!”

-“A senhora acredita que estou com 30 anos já!”?

-“Nossa…nossa, já? Ainda me lembro de você quando menina. Mas, não se preocupe. Você está linda e nem parece a idade que tem. Está super conservada….!”

-“C-O-N-S-E-R-V-A-D-A…..”(pensei, com dores no cérebro)

Que tal a da minha vizinha:

-“Minha doida linda, esse ano você se resolve, tenho certeza!!!”

-“ Não, Nina, acho que balzaquiana agora, não sonho mais com um príncipe encantado!”

-“Que nada, uma mulher lindona assim! O Alfredo está separado e louco para conhecer alguém!”

Clássico, clássico, clássico!

Atenção teatro romano “balzaqueo”, os tambores anunciam a chegada de mais um clássico em seus capítulos!

Sensação! Verdade! Pura realidade! Quem sou eu diante dos ditames pregados pela realidade e seus filhos julgadores?

Apenas uma Agatha, a boa com ares de má, ou vontades de má. O que for…

Iria começar a conviver com tal situação.

-“Xi, você vai ouvir e muito isso! Comigo acontece a toda a hora…”- diz minha prima Carol, solteira ainda aos 39 anos.

Curiosa a vida! Brindemos a reflexão! Antes, os rapazes bonitos, de vinte e cinco, vinte  e sete anos, virgens da situação casamento, totalmente disponíveis! Depois dos trinta, ah, vamos pegar o que “sobrou”. Clamemos: “Recém-separados, fiquem felizes, pois a vida lhes brindou com as Balzaquianas de plantão – noivas que estão sentadas há anos na saleta da igreja só esperando o noivo chegar, sempre a qualquer momento!” Aí vem um com a típica frase: “…quando você menos esperar, você conhecerá alguém! Desencane e viva a vida…”. Só que se esqueceram de falar a real: “…quando você menos esperar ou quando você mais esperar, procurar, não vai fazer muita diferença, porque seu príncipe pode ter morrido antes de você ter nascido ou de repente, ele nunca vira”.

(risos sarcásticos)

Aliás, aos 30, hoje percebo que posso sim viver só. Será!?…Bem, reflitamos. Quem foi o total burro que ensinou à humanidade a obrigação de se ter que ter alguém e que ser solteiro pode ser algo estranho!?… A máxima: “…nossa, ela deve ter um problema coitada…”- o clássico pensamento dos casais naqueles jantares de casais que te convidam e só você e uma outra são solteiras. Ou ainda, os clichês, do tipo casal que se casa e demora anos para ter filhos. O clássico comentário: “…nossa, um dos dois deve ter problema…”.

Idéia inexata!

Maldita sociedade que brindou o mundo com ridículos clichês. Um bando de bonecos e bonecas seguindo ditames que mal sabem do que se trata. Depois alguém mata alguém e ainda é culpado!…

……

…….hum…

Nossa, estou sinistra. Virei já uma solteirona frustrada, com aquele discurso revolta-ao-mundo!? Não, assim meu Ego clama. Coisa desta minha idade que deve estar me aterrorizando neste agora…Mas…toda divagação tem um fundinho de verdade! Idéia clara!

Bem, mas voltando ao desenrolar dos primeiros momentos Trinta, comecei a me arrumar para a grande noite. A festa seria na balada de sempre. A balada das bonecas de todo o fim de semana, o point, onde nós, bonecas viciadas, vamos aos bandos toda sexta-feira, sábado, e eventualmente, quinta.

-“ Faz a festa em outro lugar, minha filha, sempre lá!”- dizia minha mãe.

- “Vocês já estão muito marcadas lá, pois não saem desse lugar!”- completou minha irmã de 12 anos, intelectualóide, com oculinhos na testa e livro do James Joyce nas mãos, uma garota prodígio.

Não, não e não! A afirmativa aqui inexiste. Idéia sucumbida! As bonecas são viciadas e mudar de lugar seria impossível. O pessoal estaria todo lá. A galera…

-” Agatha, você não tem mais idade para falar GALERA!”- disse meu Ego.

Ignorei-o.

…e hoje, meu aniversário seria o momento da maior exibição possível. As prateleiras estariam a ferver aos olhos das sensações e gostos!

Pois certo…

A produção deveria ser caprichada! Olhei pela fresta da janela e a escuridão estrelada deu sentido ao meu dispensar-o-bolo-da-vovó. Comi meio pedaço por conta do tubinho(apesar de ser de chocolate e eu amar o chocolate…poderia assassinar todo aquele chocolate naquele momento, ainda mais com a ansiedade que estava…mas me controlei, ineditamente!). Agradeci a todos e corri para o meu quarto no intuito de engatar a super produção. Detalhe: moro ainda com meus pais. Solidão, comodismo? Não sei ao certo. Mas, posso dizer que adoro família, e sou super tipo família. Pena, que talvez a família fique só por aqui.(risos) … Não é papo-solteira, é papo-realidade. E lá temos outro clichê. Tens uns e outros mal-amados que adoram criticar quem mora ainda com os pais, como se o “ainda” fosse sinônimo de obscenidade.

Ora bolas!

Poupe meu cerebelo! Idéia inexata!

Primeiramente, eu já deveria entrar no clima. Eu e a Vanessa nos falamos novamente. Estava ela ansiosa e super animada, como a concentração de uma escola de samba. Disse que levaria até mesmo o bolo, e ainda cobrou minha presença às 22h15, impreterivelmente(um dos meus clássicos é ser atrasada). Caso contrário, eu perderia o camarote. Sempre nos encontramos meia-noite na porta, mas, desta vez, seria preciso ir mais cedo.

Pois bem! Diante da celebridade maior, eu, naquela noite, reiventei-me e me pus a melhor. O tubinho caiu bem. A progressiva nos cabelos de pé! A maquiagem, perfeita! Hum, talvez me falte algo. O que seria? Claro, o anel que a vovó me deu quando fiz 15 aninhos. Um toque diferente para dar sorte! Quem saber neste 15 x 2, tudo mude!

A noite era minha!

Chegando lá, desta vez sozinha, pois cada uma foi com seu carro, estavam elas lá. As quatro das mais famosas bonecas. Lindas, brilhantes, enfeitadas- de- arrasar, como purpurinas em meio a um manto estrelado. A noite seria nossa, sim, por completo! Estacionei o carro na pracinha e já as encontrei fazendo um esquenta no ponto de táxi. Olhei para elas, e todas sorriram. As quatro bonecas! E vamos às apresentações!

Boneca Agatha: agatha2esta sou eu, a mais nova das quatro célebres bonecas. Como comentado nas iniciais da narrativa, detenho um formato pêra, fato que me faz quase sempre usar a calça preta para disfarçar os quilinhos a mais. Cabelos lisos na altura do pescoço, escuros! Trabalho como editora de moda e assim, tento entender tudo sobre as tendências das passarelas, o que talvez não seja o caso. Faço tipo a boneca-romântica-sarcástica, uma mescla de Cinderela com a Bruxa do 71. Adoro dançar, beber, e a caipiroska de morango é a minha convidada de toda à noite.

Homem atual: o Márcio.

Eu o conheci na balada, o que me dá o direito de ouvir quase sempre: “…é cara de balada, nunca vai te levar a sério!”. Sei que ele vive me colocando e pegando de volta na prateleira, e eu, boneca- romântica- assumida, topo, como se uma luz divina um dia viesse a mudar os pensamentos dele. Um cara que não quer nada sério, ou que finge que quer mas não o realiza, teria, como num passe de mágica, a habilidade de se transformar em um alguém que tudo quer sério? Difícil. Só mesmo as lendas, e uma delas é a Flávia.

E o que seria lenda? Lendas são as garotas que já tiveram a capacidade-quase- impossível-que-só-se-vê-em-filme-de-Hollywood de conquistar e namorar sério um cara que conheceram na balada. A probabilidade gira em torno de 0,99% já que a noite “baládica” é mais um mercadão de usados e semi-novos onde as prateleiras fervem até as altas horas da madrugada. Mas, como quase toda a regra tem sua exceção, os 1% que a Flavia participou oferece a chance de pensarmos, todas nós, que tudo é possível. Saímos de balada e a maioria diz que deseja se divertir e tal. Mas, é claro, que todas, sem exceção, acreditam que podem encontrar um príncipe em meio ao flash back e aos quilos de vodka de plantão.

(risos sarcásticos)

Ainda me lembro de um diálogo com uma das meninas:

-” Preciso sair e ver se encontro alguém. Onde mais vou conhecer? No trabalho, só cara casado. Tenho que sair, do contrário, vou me casar com o entregador de pizza!”- comentou uma amiga, desconsolada ao telefone.

Continuando…

Boneca Flávia: flaviaA Flávia talvez seja a mais temperamental de todas nós. É a mais brava e não leva desaforo para a casa. Vive a protagonizar cenas pitorescas, com direito a capítulos de barracos ornamentais. Está sempre divagando no coliséu. Faz o estilo boneca-mulher-maravilha, e por isso, esbraveja toda a vez que sente que está muito na prateleira. É também a mais em cima do muro. Difícil prever seu comportamento, pois faz o estilo certinho e louquinha ao mesmo tempo. De cabelos aloirados, mesma altura que eu, e estilo sorridente, esta boneca se veste toda certinha, fechadinha, mas em 49,9% das vezes, termina a noite no quarto de algum cara. “De boa”, como ela mesmo diz, se o cara realmente for o cara, não vai se importar se ela “der” na primeira noite.

Homem atual: todos.

Já com 32 anos, terminou um quase-namoro há pouco tempo, então, está total na pegada, afim de cometer todos os suicídios no meio de uma pista. Atenção Platéia: venham todos assistir, pois a Flávia vai sangrar nesta pista suada e usada!…Difícil fase, coitada, mas é super gente boa. Tivemos, tempos atrás, uma séria briga, pois ela ficou com o meu cara, e eu, na raiva, com o dela. Trivialidade feminina! Histórica entre todos os povos! Mas, voltamos a nos falar e hoje estamos bem. Afinal, para que brigar por “caras de balada”?…como nós mesmos e eles se intitulam.  A Flávia é ainda nutricionista e trabalha em uma grande empresa. Quase sempre perguntamos e não entendemos como ela não consegue conhecer nenhum homem legal se na empresa dela trabalha mais homem do que mulher. E ela sempre nos responde: “são todos casados, e casados tô fora!”. Bem faz ela! Estamos com mais de 30, porém ainda seguramos a apelação geral.  E sobre o caso lenda, a Flávia, aos 25 anos, conheceu um rapaz na balada e o namorou sério por 2 anos. Por isso, ela seria uma das lendas, história que ela mesma adora contar com todo o orgulho do mundo.

Boneca Vanessa: vanessaa Vanessa está com 31 anos. Já tem uma filha, mas não fruto de um casamento sólido, mas de um namoro nos tempos dos vinte e poucos anos. Advogada, morena e alta, a Vanessa é a mais solta de nós, a mais doidona, digamos assim. Costuma se vestir sempre de forma “sexy”, com as pernas e costas de fora, mesmo se o Pólo Norte bater lá fora. Adora um decote, pois deixa bem à mostra seus seios avantajados. Faz o estilo boneca- disponível-sempre, a toda hora. Talvez ela seja a que mais “pega” na balada, chegando até mesmo a beijar 6 em uma única noite. Mas, dia seguinte, fica sempre ávida na espera do telefonema de algum dos caras. Impossível mas ela consegue o improvável: romantizar o beijo em seis bocas em uma noite só! Como ela sempre diz: “domingo não tem nada para fazer e preciso garantir uma saída! …a gente tem que sempre garantir algo”. Sempre dou muita risada com ela, pois ela é a mais divertida.

Homem atual: o Marcos, o exótico rapaz da dupla de gêmeos italianos que estão sempre nesta balada. Como ele sempre está lá e ela também, quando ninguém pega ninguém, os dois ficam. Diz ela que já se apaixonou por ele, mas o esqueceu, e hoje é mais questão de prateleira mesmo.

Boneca Cristiana:cris A nossa mami, digamos assim. Aos 34 anos, é a mais velha do quarteto da turma. Faz o estilo mais clássico. Com cabelos ruivos pintados e estilo chanel,  a Cris, empresária, é a mais sofisticação. Adora maquiagem leve, roupas sem muitas cores, mas não dispensa o salto 10, algo que disfarce ou dê um pouco mais de charme aos seus 1.56 m de altura.

Homem atual: o Pedro, óbvio também de balada e freqüentador assíduo da mesma casa aos finais de semana. Às vezes ela reveza com o Augusto, 10 anos mais novo que ela. “…impossível eu ficar com um pirralho. Por acaso, tenho cara de mãe!?”, diz ela, mas quase sempre, ela saí da balada com ele para lugares secretos(risos-motelísticos), digamos assim. Ela está sempre apaixonada pelos dois, e nunca se decide,e por isso, comete alguns deslizes, tipo foras. Sabe aquele tipo de gente que vira-mexe, dá um fora!? Pois, bem, a Cris é assim. Tem sempre histórias de trocas de nomes de homens na hora H, ou saias justas quando se vê diante de dois ficantes, acidentalmente, em um mesmo ambiente. Ela é também a mais “interesseira”. Para ela, homem tem que ter carro e grana. Do contrário, ela não dispensa seu falatório com um “pé rapado”, segundo suas próprias palavras. Ora faz o estilo de boneca de loja, disponível aos que querem comprá-la(se o leitor me entende), ora faz dos homens seus bonecos.

Bonecas….bonecas..

Estas são as quatro bonecas principais. Mas, a turma é grande. Somos em quinze aproximadamente. Falo de quinze mulheres de idades que variam dos 28 anos aos 52.  A turma ainda apresenta outros cinco homens, os bonecos, digamos assim.

Considero o grupo como “os últimos solteiros da cidade”, os 4,99% que ainda não se casaram lá do álbum de formatura do colegial, e que freqüentam as raras baladas dos mais de 30 anos. Digo isso com toda a afirmativa, pois 90% das baladas estão lotadas de pirralhos e pirralhas de 19, 20 anos, aqueles que sem você perceber trocam palavras como “veio” e “ta ligado!” com você. Jamais me esquecerei do instante em que percebi que o mundo-balzaqueo-solteiro  me espreitava por trás das janelas. Na comemoração dos meus 28 anos, marquei a festa em uma balada da moda, destas que todos estão indo. Claro! Queria estar entre os melhores, e assim, fiz sem checar o tipo de idade do público que lá frequentava. E em meio a pista de dança e músicas remixadas dos grupos juvenis do momento(hoje, me esqueci o nome, mas era coisa à lá RBD do atual),  me deparei com minha “priminha”, de 18 anos, lá dançando. Nos cumprimentamos, mas repudiei total vê-la, pois em minha mente, ela ainda usava fraldas. Estar na mesma balada que ela me fez pensar:

-” Nossa, ela usava fraldas e eu já frequentava a balada. Ela cresceu e eu ainda estou aqui, nas baladas!?….afe, não pode. Nunca mais venho pra cá!”

Básico, meu Ego me fitou:

-” É, você tem que começar a procurar baladas mais de gente da sua idade. Você não tem mais idade para qualquer lugar, do contrário, você pode espantar os menininhos e as menininhas!”

E, ainda, minha prima completou o discurso-luxo-lixo:

-” Nossa, Gha,você é diferente né? Quando eu tiver a sua idade,e se eu não casar, quero ficar como você, super animada, indo para a balada. E você parece bem mais nova!”

Tradução, caro leitor:

-”Nossa, Gha, porque você é diferente, nunca namora e está solteira aos quase 30 anos? Quando eu tiver a sua idade, claro, daqui há uma década, se eu não casar, e Deus que me livre disso, não vou ter outra solução aos sábados à noite, e vou ir para a balada, curtir, sabe, tia-prima? Você tem quase trinta anos, mas dê graças a Deus que você parece ser mais nova!”

Basta!

Achei tal capítulo um terror, para bem dizer a verdade.

Continuando…

Diante de tal destino, e para não corrermos o risco de sermos chamadas de tia,  nos concentramos na mesma balada, ora trocando por um ou outro raro lugar, e assim, compartilhamos das mesmas idéias, flash back , viajadas e conquistas. Nos adoramos, não nego, e não vivemos sem nós mesmos. Começamos com um grupo de três, e hoje, as carinhas marcadas são tão conhecidas que o “oi, me conta tudo!” é a frase principal quando adentramos no cenário da balada. A amizade é certa, mas o momento Gossip Girl sempre entra em ação. E vamos, os trintões, na balada mesmo!Nada daquela situação programada: “…saí dessa fase, curto mais um barzinho!”- jargão clássico de muitos trintões. Gostamos é da balada, do som alto, da música, e dos homens e mulheres de lá. Afinal, frente à dificuldade de se encontrar um par no mundo real, a balada- mundo abstrato- tornou-se cenário para muitas rainhas- nós, as bonecas. E na falta de um cara bonito ou que chame a atenção, sinto muito, vou encher a cara. Sou adulta, profissional, solteira, sem dar satisfação a ninguém, e neste agora, vou dançar e beber, sem medo de ser feliz. Sou eu quem vai digitar a senha do cartão de crédito, no final, e não você!

Idéia clara!

E lá estavam todas elas. Vestidas praticamente iguais, maquiadas, lindas e super animadas. Seria o meu aniversário! A grande noite! A fila da balada já começava a aparecer, mas é claro, não pegaríamos, pois o pessoal que trabalha na porta sempre nos libera na entrada, afinal, estamos nesta freqüência há tempos. Mas, um momento! É a hora da Vanessa comprar cigarro no barzinho da frente. E põe cigarro nisso! Mas, felizmente, não fumo, e a lei do “proibido fumar dentro da balada” foi um sonho para mim e meus cabelos, ao contrário da Vanessa, que detestou a medida.

Cigarro, roupas sexies, batom nos lábios…as bonecas chegaram lindas, para arrasar. Dá licença galera, público, platéia, desculpa te cortar nesta fila, mas as celebridades chegaram!

 

EPISÓDIO 3

During…

A noite irradiou as primeiras fendas da luminosidade das estrelas. A balada, a mesma de sempre! Entretanto, o ar era outro. E sabem porque? Era eu a protagonista, ou seja, a principal daquela noite. Barramos a fila e me adentrei no cenário, com ares de posse. É claro, gostaria de ver meu nome datilografado na mesa principal do camarote, sendo este todo o meu, pelo menos naquele capítulo noctívago.

Poucas pessoas circulavam. A balada só bombava a partir da meia-noite- hora da cinderela voltar para a casa, mas ao contrário, a cinderela chegava. Estava claro que iria lotar! E aí se meus amigos não fossem! Seria um mico total deixar aquele camarote vasto e vazio. Um desperdício de tempo, dinheiro e humor. E eu havia convidado a todos, absolutamente todos, na tentativa de não correr o risco do vexame. As principais estavam já lá: Vanessa, Flavinha e Cris. Os primos e primas também viriam. Entretanto, rumo ao sucesso total, convidei até os “colegas” de Orkut e Facebook. Sabe aquelas pessoas que você nunca fala, mas que há poucas semanas falou só para garantir mais gente na sua festa de aniversário? Pois bem! Aconteceu exatamente isso comigo. Sinto muito a honestidade, pois não faço o tipo popular. Acredito que muita gente apela em um momento destes. Convidar mais um, beleza, afinal, a comanda é individual e quem lá entrasse pagaria a sua. Aí, que a dúvida me pegou, pois em festas “boca-livre” que fiz em casa, e tal, nossa, a galera veio em peso. Mas, quando o assunto é bolso, somente aqueles que gostam mesmo de você é que comparecem.

Óbvio!

Bem, vejamos quem gosta de mim, então!(risos sarcásticos)

- “Imagina se não vem todo o mundo!?” – perguntei com anseio para a Cris, enquanto passávamos batom no banheiro.

À propósito, banheiro feminino é básico nas baladas. Mas, não em seu sentido literal. Às vezes nem chegamos a usar a privada. Ou ainda, quando mais usamos, é para vomitar os quilos de vodka em nosso sangue. Nos próximos episódios, contarei o homérico e alexandrico(lembra de “Alexandre, o Grande”?) dia fatídico em que eu e a Flavinha nos embrenhamos no mundo das tequilas. Vamos lá, barman, mais uma… Mais uma…Aí chega um dos irmãos italianos e…mais uma! Se um homem teve a gentileza de nos pagar uma bebida, não vamos recusar, não é mesmo? Aliás, bebida é cara e quem quer desperdiçar!? Ninguém, não é mesmo? Afinal, são copinhos tão pequenos! E no disfarce do “não bebi muito hoje”, vamos rachar! Metade toma você e a outra eu. E nessa de copinho pequeninho, só para dar aquela agitada(detalhe: estávamos morrendo de sono no começo da balada e só tinha cara feio e horroroso…às vezes saímos de balada por inércia, como máquinas programadas), nem percebemos o que aconteceu depois. A última e vaga lembrança que nos irrompe à mente se tratava das duas, no mesmo cubículo do banheiro(lá têm quatro privadas, na pista de baixo), uma sentada com a cabeça baixa vomitando, e a outra, sentada ao lado, vomitando na lata de lixo. Lembro-me de só ouvir umas vozes dizendo: “…nossa, esse banheiro está cheirando vômito!”. E nós lá, entregues a Dionísio, sem condições de nos mexer.(risos sarcásticos). Isso sem contar nos selinhos que demos nas mulheres, ineditamente, naquela noite! Detalhe: somos hetero totais, mas com tequila no cérebro, transmuto-me em até mesmo no palhaço Bozó ou na Priscila- Rainha do Deserto. Mas, deixemos tal situação a ser descrita posteriormente!

Ainda no contexto banheiro, para nós, as quatro bonecas balzaquianas, a ida ao banheiro na chegada da balada é coisa absolutamente fundamental. Já chegamos prontas e maquiadas, mas se não dermos aquela olhadinha inicial no espelho, dá a impressão que estamos ainda de cara lavada e de pijama. E lá vamos nós, retocar o que ainda não precisa ser retocado, e lançar olhares de fatal ao espelho, como a promessa de uma noite quente e ardente. Eu re-retoco o batom e o pó, a Flavinha lava as mãos, batom e penteia os cabelos! Já a Vanessa arruma os seios e o seu vasto decote, e a Cris dá aquela rodadinha no espelho, de cima para baixo. Uma pitada a mais de gloss! Mais uma olhadinha final, e pronto, não existem mulheres mais gatas que todas nós!

Banheiro feminino é ainda aquele local básico das fofocas. Por isso, chegamos a ir quinze vezes na mesma noite. É ainda palco do cenário das lágrimas. Lembro-me da semana passada ao ver a Cris chorando pelo Pedro, por que ele, é claro, estava beijando outra no canto, como se estivesse fazendo a coisa mais tranqüila do mundo. “…desculpa, gata, mas a gente não tem compromisso!”- clássica resposta. E conversa vai e vem. Até as tias que limpam os banheiros sabem tudo sobre nós. Histórias e mais histórias. Já vi até mesmo montarem comunidades de orkut em homenagem a elas. Somos, na real, como novelas para estas profissionais da noite. A toda a semana, elas ficam sabendo dos novos capítulos. E por isso, entre os diálogos da vaidade, superficialidade e amizade, sendo esta última rara, chegamos a ficar 20 minutos no banheiro, em uma única ida, ora comentando da face da mulher que o seu cara tinha acabado de ficar, da roupa da fulana, ciclana, beltrana, ou para dar aquele descanso nos pés. São mais de quatro horas, sem sentar, usando o mesmo salto. Não há pé que agüente 100% do tempo.

- “Imagina, Gha…não pense assim, vai ser um sucesso! Aí meu Deus, meu celular….”- a bolsa dela tremeu- “…é o Augusto, nossa será que atendo?”

- “Sim, claro que atende….! Mas, ele vai acabar ouvindo o som!”

- “Então, mas nunca que ele pode saber que estou aqui. Nunca…”

Pausa! Mais uma olhadinha no espelho. O celular parou de tocar.

-” Hum, já sei, vou pedir pro Guimarães(um dos seguranças da balada) me deixar sair um minuto. Aí, eu falo lá do carro com ele, e ele não vai  perceber! No carro é silencioso”.

- “Nossa, mais muito estresse isso…deixa ele tocar…”

- “Ah, claro, e ele aparece aqui com certeza, e eu já vou estar com o Pedro! Vai ser aquele barraco!”

Essa é a Cris, sempre confusa com esses dois homens. São os raros casos, assim considero, em que eles são os nossos bonecos. Mas, direitos não são iguais? Deveriam. Ainda hoje pega muito bem o cara pegador, mas muito mal a mulher pegadora. Quem foi um outro burro que inventou isso, hein?

Saí do banheiro, deixando a Cris lá, a resolver se atenderia ou não o telefonema. Ela queria e muito encontrar um príncipe, mas ela se matinha nesta gangorra, pois acredito que esperava por coisa melhor. Não sei! Creio ainda que ela gosta de manipular, e por isso, mantém a sua prateleira ativa. Mas, coisas que acontecem! Já fiz esse papel. Continuando…Estava eu super mega ansiosa. A expectativa de ver o “meu” camarote bombando era o propósito divino, assim como uma barriga esfomeada sem comer há dias vislumbra um belo prato de macarronada, ou como um viajante no deserto sem beber há horas fita um lago do outro lado da montanha. Eu era naquela hora só sede e fome. Queria dançar, viver e beijar o Márcio, e queria ser aplaudida. Ah, afinal, de nada burro tem aquele que inventou o aniversário. Pelo menos um dia do ano temos que ser o foco, ainda mais para aquele que celebra 30 anos de vida.

Pedi para a Flavinha ficar no camarote para não perdermos o espaço por uns minutos, e dei uma voltinha na pista com a Vanessa. Olhei se alguém conhecido estava lá. Até aquele momento uns três ou quatro! Avistei a Celeste a sua filha. Esta, uma das histórias peculiares da balada. Separada, bonitona, com 49 anos e com a filha de 19 anos ao lado, a Celeste é freqüentadora assídua desta balada. Vai todo o fim de semana! Super moderna, veste-se como uma garota, e vai com a Eliana, sua filha. Ambas afirmam se divertir horrores. Ainda duvido se a felicidade que a Celeste irradia é verdadeira. Como uma mulher de 49 anos, com a filha ao lado, pode estar na balada, todo o fim de semana, de boa, dançando!? E ela não pega qualquer cara não. Na pista de dança, uns homens jovens e lindos vêm falar com ela. E o melhor é que ela é jovem de tudo. Não dispensa um decote e uma saia justa. O conselho corriqueiro que ela sempre me dá é:

-“ Beija, querida, beija, que a vida passa e a vida é curta!”- diz, rindo sempre, bêbada, quando nos cruzamos no banheiro feminino.

Já eu fico na neura.

-“Deus, me ajude, aos 49 anos quero estar casada e com filhos e nunca aqui!”- reflito, mas o realismo bate sempre na porta como a última bolacha do pacote- “…nossa, mas tem gente que não casa, e se isso acontecer comigo, vou ter que vir para balada! Não vou ficar sábado à noite em casa assistindo Zorra Total…alías, Zorra Total nem vai mais existir….o que vai passar na TV?”- sinto um alívio que em seguida falece novamente-“…mas com essa idade, solteira, vou…já sei, freqüentar uns grupos…isso, de sábado à noite vou ficar com meus amigos do grupo…”- grande idéia, mas desisto novamente- “…que grupo?…eu mal freqüento a igreja…bem, o que fazer se eu não tiver ninguém!?…o que fazer!?…tenho que procurar algum grupo. Preciso pesquisar quais outros grupos existem em Sampa, no Brasil…no mundoooo. Por enquanto, vou começar a academia na segunda. Todo mundo aqui pode chegar a casar, e se eu ficar solteira mesmo, tenho que dar um jeito!”

Aí paro de pensar. Idéia inexata! Quem ainda foi o burro que inventou o Pensamento no momento em que mais não precisamos dele? Hum…

-“ Van, vamos tomar uma tequila pra começar!”

- “Ai, Gha, difícil, se a gente começar assim já viu. Vamos pegar uma ice!”

-“ É, mas essa ice cinza não tem álcool quase, parece um suco e eu preciso ficar bem pois estou começando a ficar nervosa. Não sei se o Márcio vem…!”- dizia eu, indo de encontro ao bar- “…fora que ice estufa e eu tenho que ficar quase sem respirar neste tubinho preto!”

- “ Toma uma black ou a sua famosa caipiroska!”

(Uns dois ou três rapazes já nos observavam…um bonito, outro médio e outro terrível…)

-“Hum..beleza!”

Ops! Sugeri uma mudança de direção. A balada, na parte de baixo, tem dois bares. Estávamos indo no da direita. Fim! Nunca! Passa reto! Não estava afim de cumprimentar o garçom. Detalhe: há algumas semanas, eu havia beijado o garçom. Bonitinho, novinho, mas só por conta do dia das tequilas, em que eu não enxergava um palmo diante do nariz. Interessante o quanto o álcool pode deturpar a realidade vista. Bem-vindo foi Dionísio nos primórdios da humanidade! Quanta coisa na bebedeira do povo todo foi feita, e apagada pela memória do próprio copo de uísque!? Imagina se filmássemos sempre quando bêbados!? E se de repente, as fitas todas fossem publicadas no youtube?…E se todos vissem as cenas caquéticas da bebedeira?…E se meus pais, avós, todos vissem? Não! Mas, pensando bem, seria engraçado. Um testemunho sobre a nossa vulnerabilidade, momento em que viramos palhaços não donos de nada, nem do próprio corpo, renderia a um bom filme de comédia. Cheguei até a cair no chão uma vez, de micro-saia e salto 10. Lembro-me que o rapazote do estacionamento morreu de rir. Vergonha! E claro, já fugi da blitz. Divagando sobre tal questão, a fundo, se realmente a polícia tivesse o dom divino de pegar todos os bêbados da madrugada, as cadeias seria mais que super lotadas e teríamos que usar as casas das pessoas como presídio. Daria para montar cidades inteiras, à noite, só com os consumidores do álcool e suas estripulias para escapar do bafômetro.

-“ Vamos para o outro bar, Van, o garçom está lá!”

A Vanessa começou a rir.

- ” Quem manda você beijar o garçom..!”- ela ria- “…aliás, você tem uma quedinha por garçom!”.

Pára! Imagino a cara da minha mãe no dia em que eu supostamente chegasse em casa dizendo:

- “Olá mamãe, este é meu novo namorado!”

-“ Sim, filha, qual a idade dele….parece tão novinho?!”

-“ …tem 21!”

Nossa! Meus pais reprovariam total, e a minha irmã, garota prodígio, obviamente, em sua intelectualidade e graça infanto-juvenil diria:

-“Agatha, você está atacando os menininhos. E não basta a você os rapazes da balada! Você tem que pegar também os garçons e os seguranças do lugar!? Você quer dar um limpa geral? Você está apelando só porque fez 30 anos!”

E em meio a estes pensamentos, extrai total aquela cena da minha cabeça. Imagina! Parece que aos 30 a probabilidade de ouvir “você está apelando” aumenta. Vou precisar virar uma heroína para driblar a todas essas acusações…

Sufoquei-me e corri para o outro lado do bar. A Vanessa só ria. E não teve jeito. Tomei uma dose de tequila sozinha. E que gosto de possível vomitar! Tão pouco aquele limão com sal resolve. Pedi na seqüência uma caipiroska. Iria misturar e isso poderia me trazer ruins conseqüências naquela noite, mas pensei:

-”…vou dançar tanto, mas tanto, que o álcool vai se extrair do meu organismo como uma striper tira as roupas em um show!”

À propósito, faço comparações inusitadas. É engraçado comparar e colocar lado a lado na mente. Possivelmente, mundos paralelos!(risos). Somos todos loucos, insanos, vivendo undergroundmente, em universos lado a lado.

Pista, vodka, show e exibição! Música no coração!

Ao som de “Silent Morning”, clássico dos anos 80, banda Noel, a balada flash back começou! Meu camarote ia lotando aos poucos. Amigos, parabéns, “…você está conservada…”, “…bem vinda aos 30…”, “…você é mais mulher agora…”, aos montes no camarote. E eu, toda poderosa, mas com um discreto vácuo no estômago. Onde estaria o Márcio? Já era meia-noite e meia, a pista da balada estava aberta(a pista abre, digamos assim, quando o DJ aumenta o som, liga o pisca-pisca e as melhores músicas são tocadas…eu já tinha decorado a seqüência de tanto que ia lá).

- “Flavinha, esse dj tem que mudar essa seqüência!”- gritava eu no ouvido da minha amiga, por causa do som. Detalhe: a Flavinha, esperta, já beijava, e eu, a aniversariante, sem meu par romântico.

Márcio! Marcio!

Tem sempre alguém na jogada, certo?  Me casar e tal, ser uma princesa, noiva, ou coisa do tipo, têm sido uma idéia cada vez mais improvável em minha mente em razão dos acontecimentos. A vida se desenha por si só, e não eu a ela como tantos filósofos gostam de ditar. Chego a detestar, como um assassino que mata a sua vítima, as pessoas que, no calor do mau-conselho, enfatizam com ares de sabedoria: “ …a vida tem seu destino….você escolhe mau os homens, já reparou nisso?”…Beleza, e onde posso encontrar o manual correto intitulado  “Escolha bem um cara”?… porque nas livrarias existem centenas na seção auto-ajuda. Detalhe: eu nunca compro. A Vanessa a-d-o-r-a comprar e lê e relê mil vezes, e ela sempre volta me ensinando alguma coisa. Como se regras existissem! O engraçado são aqueles livros que te aconselham à la “…cuide de si mesma, ame primeiro a si mesma, e depois, só depois será amada!”…muito filosófico, certo? Já vi suicidas sendo idolatradas por seus amantes.

(risos sarcásticos)

Continuando…Mas, o ditado “ solteira sim, mas nunca só” é a realidade pura. Todo mundo, mesmo solteiro, está sempre enroscado com alguém. Parece que é interessante ver o nome de um bando de “loosers” no celular. E não sei pra quê! E quando deixamos o nome dos ex- ficantes ou ex-namorados mesmo no cel, por anos, como cemitérios!?  Acredito que quando a carência bate, batemos o olho no celular, olhamos para tais nomes e há ainda aquelas que pensam: “…e se eu der uma ligadinha!”? E não sei o porquê. Sabe aquele tipo de cara que você sabe que não deu em nada e nunca vai dar, e você, que não pegou nada que preste, ainda tenta ligar de novo!? Todo mundo já fez isso, ainda mais às 5 horas da manhã, quando estamos bêbadas, carentes e não queremos terminar a noite numa pior. Como se melhor ficasse!

Afe…Idéia inexata!

Sensação!

Continuando a história do Márcio, estou numa de “realismo do momento”. Sabe quando a gente se cansa de esperar pelo príncipe? Mas, a gente sempre, óbvio, tipo inevitável, precisa colocar alguém na jogada. Tem que ter um ficante, um alguém, afinal, todo mundo quer transar, em último caso. E o Márcio era o do momento. Médico, 35 anos!Sucesso! Mas, a dúvida… E eu não sei o porquê de eu investir num “cara de balada”.

É clássico o pensamento: “mulher de balada”, “homem de balada”. É quase certo, perto dos 99,9%, que a ficada não passará de muita coisa. Sexo rolará, é claro, mas só por conta do revezamento das prateleiras mesmo. Dia destes até mesmo um rapaz bem bonitinho chegou em mim e disse, isso depois dos beijos e elogios.

-“ Meu bem, o que você vem fazer na balada?!”

-“ Ah, lindinho, dançar, beber, curtir, e quem sabe conhecer alguém legal!”- disse eu, bem doce, fazendo ares de mocinha pra casar para o rapaz, quando estávamos sentados no sofá, no maior papo e amasso há duas horas.

-“ Ah, mas você sabe, né, querida? Se você está procurando um noivo aqui, não rola viu!?…mas, a gente se daria muito bem em quatro paredes!”

Um ponto pro cocô! Quando ouvi aquilo, senti-me a mais idiota das mulheres. E pior, desperdicei duas horas de dança somente para ouvir e beijar um homem, que na verdade, me falaria aquele indigestivo flatulento comentário. Mas o que eu poderia esperar!?

-“ A balada não é um altar!”- dizia a Vanessa, rindo da minha história, justo ela que há um mês atrás chorava no banheiro porque pegou seu ficante de balada beijando outra.

E com o Márcio não foi diferente, pois a base tem sido a mesma. Há oito meses atrás, eu o conheci naquela mesma balada. Lindo, alto, sedutor! Sempre o via lá, mas nunca tinha chegado nele. Aliás, não chego, prefiro ser chegada. E no embalo da música “People have the power”, outro hit anos 80, ele puxou conversa dizendo que reparava em mim há tempos e tal. Gamei! E de cara ele veio com aquele papo básico e clássico dos homens de balada quando vislumbram uma possibilidade a mais em suas estantes e prateleiras:

-“ Nossa,  você é linda. Estou procurando uma namorada, mas estou confuso. Cansei dessas baladas….Nossa, você é perfeita! E você é diferente, diferente dessas mulheres de balada. Você parece ser coisa do coração!”- disse ele, aliás, sempre me diz.

marcio

Detalhe: ele diz isso há 8 meses. E sempre me diz no fim de semana. Dia de semana, mal o vejo ou falo com ele. E quando o rapaz fica com outras na balada, colocando-me na prateleira para esperar, sua boneca, ele diz:

-“ Meu anjo, não briga comigo. Eu estava bêbado e nem vi quem estava beijando!”

Dou uma de brava por umas duas semanas, e já volto pra ele. Afinal, como eu disse, ele talvez, TALVEZ, queira namorar sério comigo. Passaram-se apenas 8 meses. Quanto mais esperarei para vê-lo totalmente apaixonado? Dizem que a paixão dura 2 anos. Tenho ainda um ano e quatro meses para despertar a paixão em seu coração.

-“ Mas, você vai mesmo esperar mais tudo isso!?”- me pergunta a Vanessa, desconsolada.

-“ Não, claro que não. Ele vai ver só….mas é mais forte do que eu, sabe!?”- respondo, patética e ridícula.

Porque a gente não consegue dar a volta por cima e sair rebolando, de salto alto? A gente até tenta, mas parece que o homem da vez é a única possibilidade. E quando fazemos 30 anos, a sensação de “única possibilidade” piora. Tudo em razão dos ditames da sociedade. Já mencionei o quão burro foi o inventor de tais ditames? Se realmente fosse inteligente, reverteria o inventor tal situação. Pois, não consegue ver ele que estamos em 2009, século XXI, e que existem sim pessoas que nunca se casam? E quem zela por esse grande público? Somente as taças de vinho e as atitudes apelativas?

Ou ainda, a pressa que se tem após os 30 anos é hilário, como um elefante fazendo acrobacia no circo. Principalmente, em razão do comportamento da mulherada. Agora, a onda do momento é não somente se sentir pressionada porque todos da sua turma de escola ou faculdade se casaram, mas sim, por conta da natureza feminina. Enquanto a novela fala de congelamento de óvulo, a Flavinha me fez muito rir dia destes quando na porta da mesma balada disse:

-“ Não agüento mais essa vida! Quero casar! Tenho 32 anos, e até eu arrumar alguém e ter um filho, nossa vou ter uns 34, 35 anos. Meu filho terá de nascer com Síndrome de Down!”?

Nossa, ri muito do comentário exagerado-verdade da minha amiga. Mas não ri tanto quando em uma conversa feminina, minha vizinha, Nina, que adoro, de 53 anos, me contou como era entrar na menopausa. Dizia ela que sentia muitos calores, mas que felizmente, estava bem, pois tivera seus filhos aos 25 anos e estavam eles bem crescidos.

-“ É menina, coisa de gravidez tem que ser bem planejada. A natureza diz que o corpo é 100% saudável para ter filhos até os 30 anos!”

-“Ai, Nina, não exagera. Hoje, em dia, é tudo muito diferente. As mulheres têm sido mães mais tarde. Pronto, uma colega de trabalho minha de 38 acabou de ter seu primeiro filho!”

-“ É filha, mas são casos raros. Ela deve ter feito tratamento….!”

- “Não, disse que foi super natural!”- começava eu a me irritar.

Pausa! A Nina levou as mãos aos óculos, arrumou a gola da blusa e com ares de assassina de sonhos disse:

-“ Filha, corre. Você com 30 anos já. Você já perdeu mais da metade dos seus óvulos. Tem gente que termina de ovular com 33, 34 anos…corre, arruma um marido logo!”

-“ Ok, Nina!”……………….

Meu “ok” foi claro e seco. Minha vontade era dizer:

 -“…sua velha, quem te ensinou tamanha baboseira?”

Mas, depois, descansei. Certamente, a Nina tinha a razão. E caso meus óvulos sejam todos perdidos, assim como os brincos ou anéis que perdemos nas baladas, vou lá e adoto um. Pronto! Serei mãe de qualquer maneira. Pensei:

-“ Tudo tem solução nesta vida, menos para a morte!”

Refleti:

-“ Pó, o cara vem todo o fim de semana. Será que justo hoje que é meu aniversário ele não virá? Muita sacanagem. Dou mais cinco minutos! Passados os cinco, vou à caça!”- pensei, atormentada, ainda com o rosto da Nina na mente. O nariz dela, naquele momento, nas imagens do meu cérebro, estava tão pontudo como de uma bruxa. Interessante como a raiva momentânea distorce rostos e corpos! Bingo!  Coloquei até mesmo uma verruga naquele nariz pontudo e deveras fedorento!

-” Ninguém diz mais “pô” hoje em dia, Agatha! De onde você tirou isso, mulher!?”- ironizou meu Ego.

Ignorei-o.

E em meio à reflexão da maternidade pós 30 anos, o rosto enfático da Nina e a terceira caipiroska no cérebro, eu, já meio suada de tanto dançar para esquecer a inexistência do Márcio naquela noite, interpretando 100% a felicidade aos meus convidados, mas que a fundo sentia apenas 40%, a mais linda visão acometeu meu campo de visão.

Márcio, Márcio, Márcio!

De cabelos semi-molhados, camisa branca e perfeição, vi pela vidraça que ele estava na fila da balada. Nossa, foi como um suco no meu estômago ressecado,como um nó desatado nos cabelos, como um espirro quando a porta do metrô se abre. Que alívio! Que amor! Que apaixonada estou! Que tudo ele! Está vendo?Era preciso eu ter calma só! Ele não me enrolou por 8 meses não, ele só estava confuso! Coitadinho, o lindinho só precisava de um tempo. Eu, super mulher-inteligente, dei a ele esse time. Sim, seria hoje! Naquela noite eu me transformaria em uma das lendas- mulheres que conseguem arrumar namorado sério em baladas. Sim, seria diferente! E ele é tudo! Vou apresentar para a minhas primas, hoje, e elas vão gamar no meu namorado.

-“Gha, namorado?!”- disse o meu Ego ,desconfiado, deveras irônico.

-“ Sim, meu…namorado!”- respondi, ainda o fitando pela vidraça, embebida por um patetismo romântico, ora pseudo, ora autêntico, com ares de total crença e alívio somada a 3 doses de vodka no cerebelo.

E…

EPISÓDIO 4

During…

 

Bombando! Pista lotada, coração acelerado, paixão no ar! Estávamos definitivamente todos lá. As bonecas ainda lindas, embora a maquiagem de todas já desse sinal de desgaste, e os cabelos não tão alinhados como na entrada. Os beijos corriam feito o filme “O Feitiço do Tempo” com a repetitiva história da marmota, ou como a seção global novelística “vale a pena ver de novo”, se é que o leitor me entende. Claro, tipo básico e clássico, as bonecas foram retiradas da plateleira.  Eu, com o Márcio. A Flavinha com o ficante da semana passada, um tal de Lucas, a Cris com o Pedro e a Vanessa com um dos irmãos italianos, o Marcos de sempre. O banheiro feminino fazia fila, e eu, na quinta dose de vodka, corri para lá ao lado da Vanessa. Quando bebemos a torneira abre, e a vontade de se ir ao banheiro a toda hora triplica a sua intensidade. Um brinde às privadas! Feliz foi seu criador!…Idéia inexata!…

Dei um beijo no Marcio e fui…

-“ Lindo, vou ao banheiro com as meninas e já volto!”- disse, com o copo na mão, aos ouvidos dele, passando as mãos em seus cabelos.

-“ Beleza, eu também vou!”

Cada um foi para um lado. Só que acompanhei os passos do Márcio, que curiosamente, não tinha ido em direção ao banheiro masculino. Imaginei estar bêbada e não perceber a certeza de seu trajeto. É claro que justo hoje, ele não me daria um perdido como um diabo que foge da cruz. Não, ele estava um gentleman naquela noite. Até mesmo um presente ganhei: um lindo colar com brincos. Claro! Usei na hora para mostrar o quão ele era importante para mim. Ele estava amoroso, simpático, apaixonado, e eu podia sentir isso.

- “Van, ele está muitooo lindo hoje! Que presente de 30 anos lindo ganhei!”- disse, absolutamente encantada.

- “Aí, amiga, você o ama loucamente né!?…Mas, você está super ultra romântica hoje, estou meio estranhando!”

As meninas, que sabem da minha fase “realismo déspota” estavam estranhando.

-“ Ai, sabe, preciso ter um pensamento positivo nesta vida!? E por que não tentar começar a pensar assim hoje!?”- disse, lembrando da minha prima, exagerada no positivismo. Sabe aquele tipo de gente que enfatiza que devemos ser super positivas, mas que dá uma exagerada na necessidade de se ver a toda a hora o brilho do sol? Sim, ela é assim. Canso de discutir com ela e enfatizo: “…se todo mundo tivesse pensamento positivo, Ana, todos já seriam ricos!”. Hum, Idéia inexata! Mas, depois que vi o Marcio me dando um colar com brincos, minha obrigação dos 30 era pensar positivo, total positivo, se é que o leitor me entende.

Falando sério, às vezes precisamos colocar uma pitadinha do Fantástico em nossas vidas, nem que seja por algumas horas. Qual o problema? Apesar das lições já recebidas e estar calejada, era bom naquela noite ver um unicórnio ou duende. Apostemos  na intuição feminina!

Tempo!

-“Eu vou matar essa horrorosa vadia, Gha!”- disse, quase aos berros, a Flavinha, entrando de chofre no banheiro.

-“O que aconteceu?”- perguntei, retocando o batom, mas super tranqüila e acostumada com o fervor da Flavinha, a mais temperamental da turma.

- “ Gha e Van, eu não estava com o Lucas? O carinha da semana passada, então…fui pegar uma cerveja no bar e quando volto, a vadia estava conversando com ele…aquela tal de Karina, uma baixinha que vem sempre aqui!”

-“Nossa, essa garota se acha! Você já reparou que ela vem sempre com a mesma bota?”- dizia a Van, rindo, prendendo o cabelo, pois já fazia calor.

-“Nossa, uma vadia…espera eu sair, só vou fazer xixi…um segundo…!”- disse, trancando a porta do banheiro, mas continuava a falar- “…gente, essa garota tem inveja da gente…uma vez ela nos expulsou do camarote e eu não entendi….nunca fizemos nada para ela...!”

-“ Verdade, amiga, mas fica calma, não se estressa!”- eu disse, retocando o batom, e já ligeiramente preocupada com o Márcio na pista.

-“ Estou falando pra vocês, meninas. Eu não sei o que essa baixinha pensa. Deve ser muita inveja, só pode ser…!”- enfatizou a nutricionista, ainda acelerada.

-“ Pior que a gente nunca trocou uma palavra com ela, sequer…só levamos aquele empurrão do camarote….e vi que ela me olhou de cima pra baixo, me analisando…!”- completou a Van, acertando o decote dos seios.

Tempo!

- “Meninas, vocês estão nervosas hoje, hein!”- comentou a tia do banheiro.

-“ Justo no meu aniversário, né, tia? Mas, a senhora está acostumada não!?”- eu falava, rindo da situação.

- “ Tia, poxa vida, a gente vem pra balada, gasta de dinheiro, e tem gente que nos olha torto e ainda quer roubar o homem da gente!”- dizia em tom alto, a Flavinha, saindo do cubículo do banheiro, ajeitando a saia.

Reflexão em meio ao batom ainda nas mãos: “homem da gente?” Argumentei no divã das doidas no banheiro. Detínhamos nós a posse certa do produto lá fora? Idéia inexata!

- “ Se bem que aqui…vai saber se ele não deu em cima dela também…esses caras, nem dá pra confiar!”

- “ Não, Gha, o Lucas é uma gracinha…e ele está a fim de mim…sou bem mais bonita que essa garota, pára né…só se ele for cegoessa mulherada cai matando mesmo!”

Eu e a Vanessa trocamos olhares, com um leve despontar de sorriso. Olhávamos para o espelho, ainda nos observando.

-“ Calma, querida, você só o conheceu na semana passada!”- enfatizei junto a minha prosa, com ares de realismo, justo eu, que naquele dia me enfeitava como uma cinderela ou como a menina do Mágico de Oz. Como era mesmo o nome dela?…Isso, Dorothy.

- “ É, isso é verdade!”- completou a Van.

- “ Mesmo assim, eu acho o Lucas um cara diferente. De repente, ora. Ele me liga todos os dias desde a semana passada, já saímos fora daqui…não rolou ainda tudo, estou me segurando…não quero queimar meu filme logo de cara….se bem que ando numa vontadeee!…ai!”

As três riram.

-“ Pára Fla, não faz nem dez dias a tua última vez….!”- a Cris falava, entrando  banheiro- “ E você tá pegando demais….”

Risadas!

- “É, transar eu transei, mas isso nem contaA feia da baixinha deve estar na seca há mesesOlha eu juro pra vocês que eu pego essa garota ainda…ela que não venha pisar no meu pé ou cheirar no meu cangote!”- nesta, a Flávia se sentou na cadeira do banheiro, descansando a sola do sapato.

-“ Só se ela for lésbica!”- completou a tia do banheiro, provocando mais risadas em todas nós.

Risadas, festas e o cérebro já zonzo em razão da intensidade alcoólica no sangue. Lesbianismo? Nunca! A balada faz estilo hetero total(assim suponho…), exceto pela trivialidade de um capítulo especial. Não menciono sobre os selinhos em mulheres na noite das tequilas- desavergonhadas. Refiro-me ao dia em que mulher não pagava, uma sexta incomum promovida pela balada devido ao fraco movimento das noites antecessoras. Era ainda show do cover New Order….Caro leitor da minha idade, é básico New Order no remember festa de 15 anos, certo? E na noitada flash back, não poderia faltar tal personagem. Ocorre que em tal noite, mulher era free total, e sendo assim, era esperado um grande público masculino. Assim, a casa-balada-de-sempre lotaria, enchendo os bolsos dos ricos empresários e os ânimos de todos os freqüentadores. Óbvio! Idéia inexata! Balada vazia é lixo, como um rato preso na ratoeira. Produzir-se totalmente a fim de se adentrar num copo vazio é mera utopia inimaginável. Prateleira vazia!? Estamos totalmente fora, out! E não há bebida ou álcool que sustente o vazio da pista, pois, por acaso, pista de balada serve para se virar estrela ou dar polichinelos? Nunca! O ideal é dançar soltinho, ora presinho, ora com no máximo um passinho de reserva ao seu lado.

Continuando…(melhor refletir agora, pois a Vanessa e a Flavia ainda continuavam a retratar os dotes físicos da baixinha de plantão, como a chamamos….como se uma miss eu fosse….mas, melhor que aquilo, sou!!!…voltando…)

(risos sarcásticos)

Na balada mulher- free, chegamos, mas a produção do espetáculo não havia nos contado um peculiar e interessante dado, caso contrário, teria mudado completamente a nossa primeira impressão daquela inicial trágica noite. Era sexta-feira, e chegamos animadas e por isso, cedo. Às 23 horas, estávamos na porta, claro, cortando a fila, afinal, sempre fomos as estrelas ou ainda, as “estrelas”.(risos sarcásticos). Entramos, e a hostess nos informou que até a meia-noite, a bebida era de graça para as mulheres. Bingo! Beber já e economizar sempre foi tudo o que precisamos. Subimos no camarote e nem olhamos para a pista. Estávamos na ânsia do “é de graça”. Aliás, todo mundo assim é. Parece que o “é de graça” incita alguma faceta selvagem do ser humano, a ponto dele se esquecer de tudo e ir correndo, como um gambá corre do banho, no intuito de garantir a sua presa-free. E foi assim com a gente! Subimos no ímpeto, e pegamos as duas básicas vodkas com Red Bull…e muito gelo, é claro. Bebemos uns dois goles e sentamos no sofá clássico da balada.( Às vezes, no começo, antes da bomba explodir, sentamos no sofá, fofocamos e olhamos nos arredores).

Passaram-se uns quinze minutos desde que havíamos chegado e só descansamos o anseio, quando enfim estávamos sentadas e com as bebidas na mão. Até o banheiro típico da entrada deixamos para o pós-pegar-bebida-free. Como se o estoque da balada fosse magicamente se apagar! (risos sarcásticos).

Sentadas, observamos ao redor.

-“ Nossa, quantas mulheres!”- assim pensei e depois exclamei:

-“ Cris, olha quanta mulher nessa balada, nossa!”

- “É, estou reparando mesmo. Mas tem muita…mas os homens devem chegar logo…!”

Pausa! Mais mulher adentrando-se pelo camarote.

-“ Nossa, Cris, mas hoje está exagerado!”- comecei eu a me descontentar, a sentir um incômodo. Eu pedia pelo cheiro de uma testosterona, e por enquanto, só provinha dos garçons.

- “ Verdade…(pausa)…meu  Deus, hoje, está lotadaço de mulher…nunca vi tanta mulher em minha vida!”

Pausa!

Silêncio! Reflexão!

Milhares de seios e vaginas circulando diante dos nossos olhos! Era como um cinema na exibição do filme “O Portal das Mulheres”. Nossa, mas creio que inexiste tal filme. De onde eu tirei tal nome?

Idéia inexata.

-“ Gha, está muito estranho isso aqui hoje, fala sério!”

- “Também estou achando muito estranho…sério, vamos levantar, circular e ver onde estão os homens!”

Levantamos e demos uma volta apenas nos arredores do camarote. E, incrivelmente, só mulheres e só.

-“ Sério, vamos perguntar o que aconteceu?…sei lá, para alguém…estou me sentindo uma lésbica!”- comentei, rindo nervosamente com a Cris.

Perambulamos e encontramos um dos seguranças da balada. Mas, até encontrarmos, nos deparamos com centenas de mulheres. A balada tem capacidade para 600 pessoas, assim imagino, mas minha visão fitou um campo de futebol inteiro preenchido por mulheres, praticamente um Maracanã, e de tudo quanto é o tipo: loiras, morenas, negras, ruivas, brancas, pardas, altas, magras, baixas…bonitas, feias…etc…Certamente, me passou pela cabeça como seria viver no mundo ao estilo “The L World” e senti uma repulsa total. Nada de preconceito, pois sempre fui muito aberta. Mas, indaguei: “…como posso conseguir sentir tesão por um seio e uma  vagina?”….refleti….

-“ A balada parece ser de lésbica!”

-“ Calma, meninas, é que só estamos deixando entrar na parte de cima as mulheres, pois a bebida é de graça apenas para as mulheres. Depois da meia-noite, vamos liberar pros homens subirem!”- comentou, rindo, o segurança.

Que alívio! E que pensamento ridículo! É claro que não se muda o perfil de uma balada assim, da noite para o dia. E observamos o andar de baixo, lá de cima. Os homens estavam lá, e estranha ou obviamente, olhavam apreensivos para a parte de cima do camarote.  Pareciam cães em busca de suas cadelas…Imagina se não fosse liberado a mistura dos dois povos?Homens e mulheres separados em baladas!?(risos sarcásticos).Até que seria um projeto interessante só para se ver a bicharada presa em uma jaula, desesperada pela “troca de fluídos“. Ou nem, óbvio, ninguém freqüentaria uma balada com separação de sexos: homens de um lado e mulheres do outro, quem tem pênis à direita, quem tem vagina à esquerda. Às vezes curto imaginar o impossível…é excitante, divertido, sarcástico…mundos paralelos!

O momento quase-lésbico se apagou. A lição que ficou, inexiste! Somente a dica: a bebida de graça nos cegou e nem vimos a situação com clareza.

Continuando…a conversa entre a Vanessa, Flávia, Cris e tia, agora falando de um homem maravilhoso que viram no meio da pista, fluía.

-“ Pena que estamos acompanhadas…do contrário, eu chegava!”- falava a Vanessa, orgulhosa de seus seios, apertando-os mais ainda ao fitar o espelho.

-“ É, estou com o Márcio e com ele não quero mais nada que não seja ele!”

- “Você pode se dar mal, hein, amiga…olha o que esses caras já fizeram com a gente. O Marcos vive aprontando comigo!”- completou a Vanessa.

A tia limpava a pia, já em poças de água, pois uma das torneiras entupiu o pequeno ralinho.

- “Não, a minha história é totalmente diferente! Estamos juntos há oito meses!”

- “ Sei…!”- dizia a Vanessa, com receio, mas senti que da parte dela a descrença era geral, apesar de eu estar vendo um unicórnio, uma fada, um duende na pista, pelo menos naquela noite.

Será cegueira de aniversariante?

Idéia inexata!

- “Gente, ele está confuso! Não é fácil ser médico. Ele deve ter uma vida dura, coitado. Ele precisava de um tempo. Mas, hoje, ele está super romântico comigo. Me deu um presente, está o tempo todo do meu lado…aliás, vamos sair daqui pois ele está me esperando!”- falei, com ares de pressa, afinal, estávamos em um momento gossip-banheiro há 10 minutos.

Saí na frente, e as duas, atrás de mim. Não estava a fim de perder o calor do momento-unicórnio. De modo algum! Era bom sentir que estava dando tudo certo, muito bom.

Fomos direto para o camarote, com direito a umas puxadas de mão e tal. A Flávia era a mais enérgica, detestando quem a tocasse sem ser chamado. Segurava o fôlego, mas já soltou uns “…caí fora, dá licença…” em alguns momentos peculiares. Já a Vanessa curtia o assédio masculino, sentindo-se mais confiante no andar-desfilar da passarela-balada.

Enfim, chegamos!

Bingo torto! Onde estaria o Márcio?

Aflita com ares fakes de “sou segura”, perguntei aos meus convidados aonde estaria o meu amado. Ele havia me prometido que voltaria para cá, e pelo que bem sei, banheiro-masculino dura uma fração de segundos. De chofre, desdenhei! Me desiludi! Está vendo como sou inocente e burra? Óbvio que o rapazote malandro me deu um perdido. Olhei para a pista lotada no intuito de achar a ponta da cabeça dele, e nada.

-“ Lá está, com uma loira…nossa, que safado!”- disse para a Cris.

A Cris apertou os olhos e exclamou:

-“ Você vem sem óculos na balada e está confundindo. Não é o Márcio!”

-“ Hum… que bom!”- respondi, meio crente, ora descrente, deveras irônica. Sou míope, e uso óculos só em casa. Lentes? Às vezes, pois estes pequenos plásticos irritam meus olhos.

-“ Ele não ia ao banheiro?”

-“ Sim, Cris, mas desse banheiro, já passou 20 minutos. Só se o cara foi fazer cocô!”- falei, com raiva na ponta do estômago. Cheguei até a imaginá-lo sentado na privada da balada, com diarréia. Achei meio nojento, e engraçado. Mas, sensivelmente apático. Queria matá-lo naquela hora.

O bolo chegou! Passando por entre as pessoas da balada, o doce de chocolate com uma vela daquelas que explode, já irradiava a sua iluminação no topo da iguaria.

-“ Isso aí, o bolo!”- gritou um primo meu, super extrovertido.

Então, iria cantar “Parabéns!”. Alías, já começavam a cantar. E eu, com a cara de mescla preocupação com felicidade, assim como o Rio Amazonas, comecei a cantar também- o clássico de todo o aniversariante. Caro leitor, você já reparou como todo o aniversariante se comporta quando sua valsa está sendo tocada? Percebe-se: mal sabemos o que fazer. Cantamos? Dançamos? Idéia inexata! Só sei que diante de todo o povo olhando na sua cara, rindo e olhando, novamente, muito para a sua cara, nem sabemos aonde colocar as mãos, e no disfarce do pensamento “…estou meio sem-graça…“, batemos palmas também, cantando para nós mesmos. Sim, arrumamos uma coisa para fazer enquanto cantam o “Parabéns a Você, nesta data querida. Muitas felicidades, muitos anos de vida!” para nós. (risos sarcásticos). É raro aquele aniversariante que fica parado, total só observando os outros cantarem a musiquinha para ele. Nunca vi! A sensação “…o que faço agora?…” é certa nos pensamentos dos tímidos aos mais extrovertidos.

E nesta, bati palmas, e assim, não me senti tão observada no momento em que todos olhavam para mim. E sorri para todos. Na real, as pessoas que eu amava estavam lá. Minhas melhores amigas e meus primos. Perfeito! Pensei:

-“ Dane-se o Márcio. Todos que eu amo estão aqui do meu lado!”- refleti, dando valor para aqueles que realmente detinham sentimento por mim. Era bom sentir aquilo. O Márcio já havia aprontado várias vezes comigo, e novamente, eu não cairia no conto do vigário.

Palmas! Velas! Gritos de sucesso!

-” É isso, aí, priminha!”- gritou, novamente, meu primo super extrovertido, de 43 anos.

E em meio ao assoprar do bolo, fui abraçada por trás e em seguida, beijada. Era o Márcio, trazendo-me um buquê de rosas.

-“ Fui pegar seu outro presente, minha linda!”

Encantei total! Por isso, ele demorou! Lindinho da minha vida, sei que hoje você me trataria como uma princesa, sua namorada!

-“ Sim, hoje, vamos oficializar o nosso namoro!”- refleti, olhando para os olhos dele, como se minha íris estivesse dizendo: “…ei, vamos falar de namoro?”

Óbvio que não falei! Não queria pressioná-lo…ops…mas, após oito meses, não era um dever meu pressioná-lo, como uma obrigação de passar no vestibular na terceira tentativa, ou na prova do voltante após o segundo teste de baliza? Hum, não sei como agir mais. Os homens de hoje são tão diferentes…. Os de ontem também…(risos sarcásticos).

Mas, beijo! Hoje, ele falará algo. Deixa estar! Vou curtir o bolinho de chocolate ao lado do meu namorado…ops…”namorado”?…namorado?…sim… NAMORADO!…

EPISÓDIO 5

during part 3

 

When you need a friend
Don’t look to a stranger
You know in the end
I’ll always be there

And when you’re in doubt
And when you’re in danger
Take a look all around
I’ll be there

I’m sorry im just thinking of the right words to say
I know they dont sound the way i planed them to be
But if you wait around awhile I’ll make you fall for me
I promise you, I promise you I will”

 

Ao som da música “The Promise”, sucesso anos 90 da banda “When In Rome”, dançávamos na minha festa de aniversário. A lembrança irrompe de forma vaga, em razão do impulso maior do deus Dionísio em meu corpo. Entretanto, a certeza estava lá. Estava eu muito feliz! Dançava, beijava meu amado, nos abraçávamos…eu jogava os cabelos de um lado para o outro, mas não de modo “metal” de metaleiro, afinal, não era palco para aquilo. Mas, de forma branda e poética. O furor do álcool me soltava, a paixão me dominava e a música penetrava em minhas entranhas, como cordas de um violão em uma canção de infinitos refrãos. Sentia-me uma completa orquestra.

 

E neste enlevo, sentia-me total ritmo, total dança, total balada naquela especial noite…

Era tempo do ritmo, das danças, das esferas na pista e do brilho do cenário.

Era o momento da entrega ao maior contentamento: a arte de estar, de dançar, de sorrir, de viver, de amar.

 

Furor Balada Nights-

 

….mas, de forma branda e poética! O furor do álcool me soltava, a paixão me dominava e a música penetrava em minhas entranhas, como cordas de um violão em uma canção de infinitos refrãos. Sentia-me uma completa orquestra. E neste enlevo, sentia-me total balada naquela especial noite. Era tempo do ritmo, das danças, das esferas na pista e do brilho do cenário. Era o momento da entrega ao maior contentamento: a arte de estar, de dançar, de sorrir, de viver, de amar, de beijar. Não havia tempo de mais nada. Passado ou futuro inexistiam! Apenas uma vontade de soltar o próprio corpo junto ao ritmo alucinante…..

 

Girl, close your eyes…
Let that rhythm get into you
Don’t try to fight it
There ain’t nothing that you can do
Relax your mind
Lay back and groove with mine
You gotta feel that heat
And we can ride the boogie
Share that beat of love

I wanna rock with you (all night)
Dance you into day (sunlight)
I wanna rock with you (all night)
I’m gonna rock the night away

 

-“And we can ride the boogie, share the beat of love….lay back and groove, groove…!”- cantava, dançando muito, ao som dos anos 80 de Michael Jackson.

Dicionário nas mãos! Som nos ouvidos! Vida! Festa e aventuras! E neste compasso, criei meu diário de histórias: “Boneca solteira procura…

-“Sim, vou escrever um diário, relatando todas as nossas histórias!”- pensei, enquanto fitava com desejo o meu Márcio.

Sensação!

Desejo!

A melhor das festas!

O tempo corria!

Rumo ao fim…

ÀS 4 da madrugada marcou sua grande jogada nos ponteiros dos dançarinos, bêbados, entusiastas e beijoqueiros. Quem curtia uma dança, apenas dançava ao som das melhores dos anos 80 e 90. Quem curtia um papo, o fazia em meio ao som alto vindo da caixa de som. Quem já tinha curtido qualquer coisa, já se adentrava na fila. E quem curtia beijo, beijava, e com gosto. Não importava quem era ou se repetido o kiss fosse. O que valia, naquele instante, era o encontro dos desejos, seja lá qual origem. Com o cérebro a mil por conta da visita de Dionísio, qualquer boca era bem vinda. E é sempre assim depois das 4 horas da madrugada. É clássico, nesta hora, vislumbrar os ares dos caçadores e caçadoras, enlouquecidos por uma presa, na tentativa de não perder a noite alucinada. É básico! Na chegada, pouco beijo se vê. Muitos olhares são trocados, pois alguns pensam que o mercadão ainda vai encher e coisa melhor sempre pode aparecer. Entretanto, os ponteiros não se seguram e correm com tranquilidade e comodismo, nem aí para ninguém ou para o anseio de outrem. As horas passam, a bebida sobe, e qualquer um se torna beijável.(risos sarcásticos). O célebre- verdadeiro-com-provas ditado “se não tem tu vai tu mesmo” vira lei na ditadura da balada após às 4. E nesta noite, na minha noite, o mundo animal repetia-se, como sempre. Era visível a pegação exposta aos olhos dos curiosos, e para a nossa turma, certamente, também.

Ainda me lembro do comentário do Jean, o gêmeo, no final da balada:

-” Nossa, só sobrou mulher feia Gha…quero pegar alguém! Tem um feinha me olhando há um tempão…sobrou ela…acho que vou chegar!”- disse, indo direto ao encontro da moça, que dançava entre poucos no meio da pista.

Incrível! O Jean chegou com uma cara-interpretação como se estivesse super atraído pela garota. E ela, caiu feito um patinho. Começou a rebolar mais ainda.

Dica, leitora: quando um cara  chega em você na balada somente após às 4hs da madrugada, esquece! Ele teve o tempo todo do mundo para fazer a cena, e se até tal horário não fez, é só depois das 4 fez, é porque você é o quebra-galho, galho que dia seguinte ele nem lembrará, pois é certo que o moço estava torto de bêbado e só a fim de uma boca e uma bunda para amassar.

Idéia óbvia!

Já eu, claro, estava total garantida. O Márcio demorou para chegar, mas estava lá comigo, ao meu lado. Sua safadeza semanal havia repentinamente se destruído, indo de encontro à satisfação dos meus desejos. Do outro lado da pista, vi meu primo super extrovertido. Estava ele com a sua segunda presa da noite. Sorri para ele e concluí:

-“ Claro!”

Uma reflexão sobre a extroversão em um ser! Tal pensamento merece um minuto em sua sabedoria. Bem inteligente foi aquele que inventou a exibicionismo natural, despretensioso, pois aquele que o detém, é capaz de se tornar o protagonista em qualquer teatro de rua. A pessoa interpreta a si mesmo, por natureza, e isso é incrível. E era assim o meu primo! O único primo de quarenta e poucos solteiro da família, assim o era, e que de fato, mandava uma banana para quem o quisesse criticar. Casado? Sim, já havia sido. Mas, não do tipo casado-papel. Mas daquele que junta os trapos com uma outra. Namorou outras e outras, e ainda, outras. Estava feliz e pouco se importava com a idade. E o melhor era beber, e muito! E nesta noite, o mais hilário capítulo acometeu meu cérebro de tanto rir. Para não gastar na balada, afinal, balada é cara, meu primo havia se tornado um mestre na arte dionisíaca. Escapando das mãos dos seguranças que revistam na entrada da casa, meu inigualável parente inventou o inimaginável: embrulhou um presente para minha pessoa, mas dentro do pacote, total lacrado, além do meu presente, uma pequena garrafa de uisque escondia-se. É é claro, bolsa se revista, bolsos também, mas nunca pode-se obrigar a abrir um presente de aniversário. Afinal, como vamos colar o durex novamente ou fazer os laços? Não, em absoluto, seria total violação da maior provacidade.

(risos sarcásticos)

Idéia inexata!

Hilário!

Brilhante!

-” Presente, priminha. Uebaaa! Só que este é pra você,e este é pra mim!”- dizia, tomando o uísque em suas mãos.

Assim, bebia ele a noite toda, e a conta, bem menor. Coisa deveras de gênio! Louco por bebiba, festa e bolso contido! Só mesmo da mente do meu primo, um ator natural, que provina tal idéia mais-que-fantástica. Adorei! Mas, é claro que eu jamais usaria dos mesmos artifícios. Na hora da entrada, eu ficaria tão vermelha que acho que o próprio pacote de presente ganharia vida em minhas mãos, e assim, denunciaria a si mesmo:

-“ Ei, ei, olhem para mim! Aqui tem uma garrafa inteira de uísque. SOS? SOS?..peguem essa ladra e mentirosa de balada, que está dando um jeito de se embebedar na balada, sem nada aqui consumir!”- falaria o pacote, autoritário, só para me desmoralizar e entregar frente ao público.

(risos sarcásticos)

Continuando…

Além do meu primo, as meninas ainda estavam lá, cada uma com seu caso repetitivo. Avistei ainda minha amiga Pamela, 33 anos, sozinha no bar. Bebia ela uma cerveja, e olhava para o meio da pista, detendo certo olhar perdido. Às vezes dançava, às vezes parava. Fui ter com ela.

-“ Meu anjo, só um minuto que vou falar com a Pamela ali!”- falei com o meu gato Márcio, um tanto apreensiva, pois eu o largaria alguns minutos e ele poderia fazer algo. Ops…insegurança ridícula! Se fosse para ele me dar um perdido já teria dado. É tolo como somos meio bobas ao lado dos homens. Não queremos desgrudar, como se a nossa presença fosse sinônimo de posse total. Meu caro, leitor, se assim fosse, não havaria tantas traições por aí, pois bem sabemos que compromisso oficializado não é sinônimo de monogamia. O povo transa mesmo! E transa com todo mundo! Quem namora, traí e quem é casado ou casada, também é frequentador da loja de chifres. Óbvio que preciso de um positivismo, ainda mais na onda daquela noite, da minha noite. Que seja! Hum…90% chifra, salvo os 10%, e está pra nascer quem me prove o contrário.

Continuando…Deixei o Márcio com um amigo em comum, o Kleber, de 36. Deixe que os dois conversem à vontade! Sentia que minha amiga precisava de mim, afinal, todo mundo pegou, menos ela. A Pamela é da turma, faz parte das garotas que conhecemos lá mesmo, na mesma balada, de tanto irmos para lá.

Passei por ela, e dei um tapa em sua bunda.

-“ E aí, maluca!? Curtiu meu super aniversário!”

-“ Oi Ghaaaa…..”- estava ela meio lenta na voz, básico, estava chapada- “Menina, tudo de bom esse lance aqui hoje. Achei legal. Mas, mas de homem, hum, estava meio fraco!”

-“ É, cara bonito mesmo só tinha o Márcio…!”- comentei, com um sorriso travesso nos lábios, me arrependendo na mesma hora.

-“ Pô, Aghata, sua amiga está sozinha até agora e vem você se achar com esse Márcio! Se manca, o pedra!”- falou meu Ego, satirizando o meu “pô” de outrora.

Consertei:

-“ Ah, Pam, mas o Marcio não presta, você bem sabe!”

-“ Ah, linda, o lance de vocês tá ficando sério hein!?”

Hum…adorei na hora saber que o povo havia começado a reparar nisso.

-“ Você acha mesmo, Pam?”

-“ Hum, o cara tá na tua. Te deu presente, tá aqui do teu lado….guenta que ele tá na tua!”

-“ É mesmo!”- respondi, sorrindo total em meu interior, deveras ligeiramente idiota.

Às vezes me critico em demasia. Lá levei tantos tombos que só mesmo o meu Ego para me bronquear a qualquer sinal de bobação. Mas, meu Ego, foda-se. Hoje, estou total feliz. Vou beijar e ainda vou embora com o meu lindo! Ora bolas! Vá cuidar de outra aí na esquina!

Idéia inexata!

Continuando….

-“ Mas, Gha, nossa, muito cara safado hoje. Você nem acredita!? Beijei um cara que ao final era…..”

 

Pausa: cenas completas e complexas abaixo do caso Pam com o cara que era…

 

Meu níver, digamos assim. A Pamela foi, claro! Estava tranquila, mas dançava muito. No entanto, seu jeito de agir era o mais hilário. Dizia ela que iria para a balada no intuito de pegar, ou seja, “pegar”, e mais nada, tão pouco importando o som que tocava. Segundo ela, 99% era “catar”, “caçar”, etc…e 1% o restante. E neste contexto, a Pam chegava logo no começo e começava a atirar para tudo quanto é lado, até encontrar o seu foco. Ou seja, estávamos junto dela nas baladas nos primeiros 30 minutos da festa, e depois…”cadê a Pamela!”?…sumiu!?…Óbvio. Idéia inexata!

Nesta noite em especial, ela veio me parabenizar. Os abraços e presente duraram cerca de cinco minutos. Em seguida, ela disse que iria ao banheiro, ou ainda, melhor traduzindo: “Banheiro da Pam= começar a caçada!”. Ela mente com tais desculpas, pois sabe ela que todas nós repudiamos esse modo de agir, apesar de gostarmos dela. Não por seu significado superficial do “catar por catar”, mas por nos deixar na balada, logo no começo. Quem fosse sozinha com ela, corria o grande-quase-certo risco de :

1)      ficar sozinha a noite toda;

2)      ser obrigada a pegar alguém para não ficar sozinha;

3)      ir embora, em casos de noites de gente-feia, música zuada ou sono.

E neste capítulo em que eu era a maior protagonista, a Pamela me relatou um curioso clássico caso de balada…Nos primeiros momentos de seu “banheiro”, a Pam já tinha escolhido o seu alvo.

-“ Nossa, que cara gato no meio da pista…olha!?…de barbicha pra fazer!!!…hum…parece do Haji da novela….muito lindo!”- falava ela, encarando o certo rapaz que se posicionava no meio da pista, ao lado de outros cinco amigos.

Detalhe: realmente, era o único bonito, e sinceramente, parecia-se com o molde-atual-global de galã. By the way- apesar de, um super gato, claro!

Ficou ela a observar o cara, e a Pam não tem a mínina timidez em se demonstrar possível, totalmente possível, para quem ela assim quer pegar. Olhava para o rapaz com olhos de leoa, ávida por sua presa, ou ainda, por seu brinquedo-boneco do momento. Das prateleiras que estavam lá, ele era um dos melhores. E ficou nesta por alguns instantes, como uma mulher na sala de parto, prestes a parir, ou como um vampiro salivando pelo pescoço sanguinolento mais próximo. Hum…interessante esse tipo de mulher. Quase sempre são eles que chegam nelas, mas das poucas elas que chegam neles, cenas emblemáticas irrompem no cenário. O bom, caro leitor, é a auto-estima. Imagina você se todos assim fossem!? Seria o mundo mais selvagem? Corajoso?…não sei ao certo…creio que a timidez protege dos tombos que podem vir a acontecer, mas é fato que só mesmo os mais atirados que dão o gol da vez.

Pam era uma mulher interessante…sem medo de ser feliz. Ex casada, ela vivia no atual para dar, curtir e receber. Entratando, óbvio, estava afim de se prender de alguma forma a alguém. Mas, quem? Enquanto não rolava uma segunda tentativa do destino em casá-la, Pam beijava e transava com os caras em 90% das vezes.

(risos sarcásticos)

Continuando….

Caro leitor, saiba…minha cara amiga Pamela foi de encontro ao seu gato da vez, e lá no meio da pista, simulou uma queda. Isso mesmo, além de seduzir como bem queria, ela teatralizava a ação. Fingiu ter tropeçado, e realmente, caiu no chão, no meio da balada. Só que, obviamente, aos pés do dito cujo.

-“ Nossa, me desculpe! Não foi a minha intenção cair em você!”- argumentou ela, fitando os olhos do rapaz, simulando ainda uma voz doce, ingênua e inocente.

-“ Linda, o que é isso? Tudo bem!”- o carinha a ajudava a se levantar.

-“ Sério, me desculpe. Estou com um salto muito alto...!”- e nesta de explicar, ela segurou em seus braços, cuidando de subir delicadamente, esfregando “ingenuamente”, seu corpo no corpitcho do Haji da noite.

Óbvio!

Cai na rede, é peixe!

Olhou, tô dentro!

Mulherada, vamos pegar!

Tá dando bola…é nóis!

Clássicos pensamentos masculinos! Sentindo que a mulher estava dando sopa, o bonitão a chamou para uma conversa no sofá da casa. E assim, a Pam ficou, por horas e horas. Em meio a esse tempo, era visível o amasso no sofá. Quando de chofre, ela chegou na Cris.

-“ Cris, você não acredita!?”- falou com ar desolado, embebida por raiva, ao mesmo que ironia.

-“ O que foi?”- perguntou a Cris, que estava no bar, procurando pela sua sétima garrafa de cerveja. (Detalhe: a Cris é a que mais bebe de nós. Não perde para nenhum homem de lá).

- “Sabe aquele super gato do começo da balada?…aquele que parecia o Haji!?”

A Cris de cara se lembrou.

- “Claro, né…acho que é o mais lindo de hoje! Vi você beijando ele no sofá. E aí, me conta, beija bem, tem pegada?”- perguntou com ares Gossip.

-“ Muita, mas o filha-da-puta deve ser casado!”

Pausa!

-“Será, mas o que ele estaria fazendo aqui, sábado à noite…cadê a mulher dele?…não, acho que não Pam!”

-“ Sério…foi assim…ele chegou com todo aquele papo de que sou linda, maravilhosa, e que tinha me visto na fila, e no bar olhando para ele…e que queria me beijar…aí, ele contou tudo sobre ele…mas ele acabou de me dizer que é casado! Ele também disse que a mulher está viajando, para eu considerar, porque ele vai se separar dela!”- a Pam estava meio puta, digamos.

Na ânsia, pediu uma vodka.

- “Como assim?…ele falou assim na lata? Do nada?…e foi embora?!”

-“ Foi…quer dizer, quando ouvi isso eu perguntei se era brincadeira e tal…ele disse que não…perguntei de novo e ele disse que era sério…aí eu levantei e fui embora…!”

Pausa!

-“ E?”

- “Aí ele veio há pouco falar comigo de novo, e disse que tinha mentido, que era brincadeira!”

-“ Nossa, mas porque ele esperaria você sair, passar um tempão, e só depois vir a falar com você, dizendo ser mentira!?”

- “Não sei, amiga…putz, claro que sei…o lance é esse…ele achou que eu ia levar numa boa, mas como fiquei inconformada, ele resolveu voltar atrás!”

-“ Afe…cretino!”

Pausa!

Pára tudo agora!

Idéia inexata!

Clássico da balada! Tipo, total óbvio, a cena acima é corriqueira na balada. A multidão de corpos, seios, bundas e peitos masculinos tem grande parte de sua cota na ala dos de-aliança-no-dedo. É básico encontrar muitos homens casados, à noite, tentado dar uma “aliviada” em outros territórios. E não foi a balada quem inventou isso não. A invenção irradiou há séculos atrás, muito antes da época dos dinossauros…menos, da época dos homens das cavernas.

 

Momento DEFINA:

 

Traição: como uma forma de decepção ou repúdio da prévia suposição, é o rompimento ou violação da presunção do contrato social (verdade ou da confiança) que produz conflitos morais e psicológicos entre os relacionamentos individuais, entre organizações ou entre indivíduos e organizações. Geralmente a traição é o ato de suportar o grupo rival, ou, é uma ruptura completa da decisão anteriormente tomada ou das normas presumidas pelos outros.

 

Ah, do dicionário, faltou dizer que a situação já nasceu, muito antes do ser humano nascer. E hoje, a balada seria mais um cenário para tal “troca-troca às escondidas”. Todas nós temos uma história destas na vida, e não há uma sequer que não tenha sido vítima do homem comprometido que dá um perdido na esposa de fim de semana, ora alegando trabalho ou qualquer coisa, na busca de outros corpos femininos por aí. E como não caímos na lábia(tem umas que topam, by the way-apesar de), as mentirinhas de “sou solteiro, gata” soam aos montes nas noitadas da ficada. E é claro, após aquele amasso, o bonitão sentiu que a Pamela pudesse querer o telefone dele ou tal, e assim, resolveu abrir o jogo.

Continuando…

-“ Um momento, ele te convidou para dormir na casa dele?!”-perguntou a Cris.

-“ Sim, claro…eu ia, mas senti que ele poderia ser especial e fiz um docinho. Disse que só iria se a gente passasse o domingo junto!”

Risos.

-“ Hum, o cara viu que você ia pegar no pé e falou que era casado!”

-“ Nem, o lance é outro. Acho que ele pega mulher que acha que a aliança é a coisa mais natural do mundo…Tem um monte de mulher que não está nem aí se o cara é casado ou não. E assim, ele achou que eu era assim também!”

-“Hum, pena que você perdeu a balada…!”

-“ E depois ele pediu meu telefone, eu dei e tal…mas não me deu o dele…disse que o número dele é novo, não decorou ainda e que  estava sem o celular naquele momento…tinha deixado no carro!”

Pausa!

-“ Vê se ele te liga, aí você pergunta, mas deve ser casado, Pam!”

-“ Também acho…e quem hoje esquece o celular? Nada a ver! Quer não deixar pistas!”

Isso, Pam, bravo! Inteligente a sua reflexão. Hoje, todo mundo está com o celular. Ora no bolso, ora nas mãos, na bolsa. Essa de “estou sem meu celular, gata!”…”acabou o crédito”…”minha bina está zuada, gata!”…”nem ouvi o cel tocar”…etc…é papo-furado em quase 90% das vezes. Lição: todo mundo está sempre com o celular. Por isso, ele foi comprado, por que sua função de vida é estar sempre ao lado. Lembro-me de uma amiga que em um dia de trabalho, realmente tinha esquecido o celular, e comentou comigo, me fazendo rir até hoje:

-“ Puta, esqueci. Nossa…estou me sentindo pelada!”

(risos sarcásticos)

Interessante como o pessoal cria as coisas, e nós consumimos com furor, como se viver sem aquilo fosse algo praticamente impossível. Imagina ter vivido no século XVIII, sem tudo isso? Não, tecnologia no sangue, direto na veia, do contrário, posso me suicidar!

(risos sarcáticos)

Arrasada, não deu em outra! Antes mesmo de começar a se perguntar se já era hora de sair(já era 4h25 da madrugada), a Pam retirou o celular da bolsa e segurou, como se esperasse a prova do crime.

Calma, Pam! Fica grudada no celular só a partir de amanhã. Poupe-me meu cerebelo.

Poupe-me? A neurótica com ares de pseudo-segura-caso-Márcio voltou correndo para os braços do amado. Claro, tipo, óbvio…eu iria voltar com ele e dormir na casa dele.

Só que ele nem desconfia da surpresa que preparei.

(risos sarcáticos)

Vamos nessa!

EPISÓDIO 6   

No quarto dele

 

I’ve been really tryin’, baby
Tryin’ to hold back this feelin’ for so long
And if you feel like I feel, baby
Then come on, oh come on
Let’s get it on, oh baby
Let’s get it on
Let’s love, baby
Let’s get it on
Sugar, let’s get it on

We’re all sensitive people
With so much to give
Understand me, sugar
Since we got to being
Let’s live
I love you

There’s nothing wrong with me
Lovin’ you, baby no no
And givin’ yourself to me could never be wrong

 

Uma reserva especial! Meu amado Márcio havia separado uma garrafa de champagne que estava na geladeira. Eu não disse a vocês, leitores, que a noite do meu aniversário seria decisiva? Pois bem, caso ele não me amasse, ele não perderia seu tempo com esse tipo de surpresa!

E assim, logo que chegamos ao ap do meu, então, namorado-não-declarado, brindamos aos meus trinta aninhos. E assim, em meio ao tal cenário romântico, o peso do “já trinta anos” apagou-se como mágica, como o fim de uma bomba atômica ou como o pagamento do cartão de crédito ao final do mês…não do mínimo, mas do valor total.

(risos sarcásticos)

Era ainda o momento da minha surpresa. Sim, meu namorado merecia um striptease, dica super especial das mais taradas das bonecas, a sexy Vanessa. Entrei no banheiro, caprichei na lingerie vermelha(ele adora me ver com tal cor, até mesmo na roupa de baixo). Ah, by the way, uma vez uma tia minha me deu uma calcinha e sutiã desta cor. Normal, mas estava eu fazendo 16 anos apenas. Nunca me esqueço de seu principal argumento, fato que me trouxe algumas dúvidas a se pensar até hoje:

-“ É a sua cara!”

Caro leitor? Lingerie vermelha? Justo eu que sempre passei uma imagem clean e de boa mocinha!. Será que tenho cara de tarada, a ponto de até minha tia vislumbrar tal perfil?

Hum…

Idéia inexata!

Divagação desnecessária, principalmente naquele momento. Eu só queria ter uma noite com o meu namorado, fosse com qual cor fosse.

Tudo perfeito! Cinta-liga ok! Era a hora do show! E ao som de Marvin Gay, Let´s Get In On, dancei, rebolei e tirei cada peça, com ares de mulher fatal do poste. Poste?…Sim, caro leitor. Lembra-se da fama do poste, ou sei lá cano, e das mulheres dançando no poste, tipo as dançarinas ou prostitutas da noite? Dos bordéis? Fez sucesso há pouco tempo…até academias começaram a dar aulas, e até as mais certinhas das mulheres participaram. Eu não, apesar de levemente intentada a gastar parte do meu salário para aprender a rebolar no poste. Mas, a Vanessa, claro, foi em todas as aulas e disse que já dançou para uns três caras…Claro, inevitável, tipo básico! Toda a mulher teve, tem ou pelo menos vai ter um momento vadia ou prostituta na vida. Não no sentido literal da palavra, mas no contexto que o significado evoca. E lá estava eu, com meu striptease de boate amadora, mas sem o cano…ou poste. Não tinha cano na casa do Márcio, além do mais, morreria de vergonha se exagerasse na perfomance. No exagero, eu me sentiria filmada e com  o vídeo exposto em todos as telas do Youtube. Nossa, estou com uma mania de Youtube agora! Porque? Claro, as piadinhas de email no trabalho vêm aos montes, e na falta do chefe, porque não ver um vídeo abestalhado para matar o tempo?

(risos sarcáticos)

By the way, o Márcio me manda várias piadinhas. Quando eu penso ser um email:

-“Linda, te amo!”…..

-“ Linda, te quero!”…

- “Linda, que saudades, vamos sair hoje!”…

Esquece! O nome Marcio pula na caixa, mas quase sempre é alguma corrente idiota, porém necessária quando estamos com aquele ovo atravessado ou com raiva do chefe. Aliás, quem foi o burro que inventou o chefe?

Que tal inventar coisas mais inteligentes?

Idéia inexata…

Afe…

 

Continuando….

Dancei, dancei, rebolei e seduzi. O Márcio, já semi-nu na cama estava de queixo caído, e repetia com veemência:

-“ Nossa, gata, você é tudo pra mim!”

E no “tudo pra mim”, eu botava tudo para quebrar. Claro, eu era a mulher mais sexy daquele momento!

 

Let’s get it on, oh baby
Let’s get it on
Let’s love, baby
Let’s get it on
Sugar, let’s get it on

We’re all sensitive people

 

Lá estavam eles no quarto do Márcio! As fadas, o unicórnio, os duendes! Hum, era tão bom ser a Cinderela! O Márcio estava super empolgado, quase selvagem, me matando de todas as formas possíveis. Meu coração saltava de emoção, e eu sentia que os trinta, sim, eram mais que bem vindos. Uma super mulher, ao lado do super Márcio. Aliás, o Márcio é muito bom nisso! Me lembro do dia em que conversamos sobre tal assunto, nós, as quatro bonecas.

-“ Gente, o Márcio me matou ontem. Meu Deus, que homem! Beija bem, pega bem, transa bem, é médico, educado, lindo…o que mais eu posso querer da vida? Não estou conseguindo nem andar hoje!”- comentei, provocando risos em todas nós.

-“ Você está parecendo a Vanessa falando!”- disse a Cris, claro, em um comentário certo. A mais tarada era a Vanessa, e ela, super sexy, não continha qualquer tipo de timidez ao falar de sexo, de como foi, qual era o tamanho, a posição que rolou, e etc….

-“ É, o Márcio me deixa assim, super ultra tarada!”- completei, me sentindo uma vagabunda com ares de rainha. Era bom eu me sentir uma vagabunda naquela hora, mas uma vagabunda de luxo, de peito, de vontade, que deixava o seu homem enlouquecido entre quatro paredes.

Que orgulho! Eu mato o Márcio de tesão mesmo!

Lá vinha a Vanessa…

-“ Gente, falando nisso, transei com aquele cara da semana passada. Nossa, muito fino, parecia um lápis….!”- dizia, simulando o tamanho com as mãos, rindo, e nós, no embalo, gargalhando- “…sério…na balada o cara beijava super bem, mas na cama, que desastre..quase que peguei as minhas coisas e fui embora!”.

Detalhe: a Flavia e a Vanessa ficam na balada, e se der vontade, transam com o cara na mesma noite. Já eu e a Cris somos bem mais contidas, preferindo ficar somente no beijo, e talvez, mais pra frente, com o envolvimento, deixar rolar o sexo.

- “ E porque você não foi embora e deixou o incompetente lá?”- comentei, rindo.

-“ Coitado…quem poderia? Escuta lindo, você parecia bom, mas você e suas calças me decepcionaram totalmente!”- ironizava, rindo também, a Flavinha.

- “ Gente, entrei em desespero na hora. Não senti nada de nada! Poxa, fiquei muito frustrada!…nada a ver com o Marcos, meu gêmeo gostoso!”

- “É verdade, e comigo já aconteceu isso!”- comentei. Estávamos no Burger King, às 5 da manhã, comendo depois da longa noite de uma de nossas baladas.

- “Sério, morro de curiosidade e medo quando vai rolar. Tem que ter um tamanho legal e tal!”- falou a Vanessa- “…é que nem beijo..beijou bem, ficamos, não beijou, dou um perdido e saio andando na balada…mas na cama não dá, você tem que aguentar até o fim ou simular uma dor de barriga!”

 

Momento passado! A Vanessa, teatral, já fez isso em outrora. Beijou, transou e se decepcionou. Como ela é tarada e quer ver resultado claro nisso, ao ver o lixo-desempenho de seu amante-do-momento, pôs-se a dizer que estava total e completamente com diarréia. Sim, caro leitor! Ela não poupou! E sem rodeios, disse:

-“ Puxa, gato, sai de cima de mim….”

-“O que foi lindinha?”- disse o rapaz, assustado, puxando os lençóis.

-“ Sem querer te ofender…você é bem legal…estava adorando…mas, sério, me deu uma diarréia agora. Quero ir para o banheiro!”

O rapaz calou-se, assustado. Hum! Meio nojento, não? Cocô com sexo é de doer. Qualquer um perde o tesão.  Exceção: se tem gente que transa com cachorro a la Caligola, tem gente também que adora ver o outro defecando no meio da trepação. Afe…tem ser humano ou animal de tudo quanto é tipo no mundo! Felizmente, enquadro-me na classe dos normais..assim imagino!

E lá foi a Vanessa ao banheiro. Detalhe: me ligou naquela hora, e ficamos quarenta minutos batendo papo. Foi o tempo do cara cochilar, e dela sair, de mansinho, sem o cara perceber. Seria muito chato se o cara acordasse e visse ela partindo, pois eles haviam acabado de chegar e estavam dando a primeira. O rapaz havia sido super gentil, pagado a conta como um cavalheiro, mas ela não hesitou. Não rolou legal, estava fora, doa a quem doer. By the way-à propósito, a Van é a mais decidida das bonecas.

(risos sarcásticos)

Idéia inexata!

Continuando….

-“ É, mas é relativo. O meu ex, Fabrício, tinha um meio pequeno, mas que mandava bem. Ele fazia o serviço direitinho!”- comentei. Detalhe: leitor, não sou tão ET assim. Na idade dos vinte e alguma coisa, namorei, sério, por um ano e meio.

-“ Não, que vergonha foi aquilo que ele me apresentou! Não, para mim, tem que ser algo de conteúdo!”- falou, rindo a Vanessa, segurando a torta de maçã.

-‘Ai, galera, mulherada, pára de falar de sexo que estou sem há um tempo. Dois meses sem transar, sete anos de azar!”- argumentou a Cris.

-“Eu já fiquei 7 meses sem transar!- falou a Flavinha- “ Mas, nada que minha agenda não solucionasse!”

Ops….Quem nunca visitou o cemitério do celular no momento em que a ânsia animal entra em ação?

-“Pegou quem?”

-“Um ex meu ainda apaixonado por mim…esse mandava bem…a coisa era toda boa e se encaixava direitinho em mim…afe, só me restou isso, porque esse cara é um porcaria. Só pra usar mesmo!”

Pausa!

-“Coitado! Pára de usar o rapaz, sua maldosa!”- disse, rindo, ironizando.

-“ Vocês pensam que eu o uso. E estes homens que vivem me tratando como uma qualquer, e me usam a toda hora!”.

Claro, bonecas! Essa é a máxima!

-“ Eu acho que não somos usadas, e sim, enganadas!”- falou a Flavinha.

-“ Minha terapeuta disse que eu me deixo usar, porque eu também estou me usando!”- Van.

-“ Gente, não sei como vocês conseguem transar com esse caras, assim ,tão rápido!”- comentei.

-“ Pra que segurar? Segurando ou não, ninguém ainda me pediu em casamento! Já tentei das duas formas!”- falou a Van, ironizando- “E imagina, voltando…imagina fazer um oral nele!

-“ Eu não sei se sou muito boa nisso, não!”- comentou a Flavinha, rindo.

-“ Eu acho nojento, ainda mais em um lápis!”- disse a Cris, satirizando – “ Está mais para pirulito-inho!”

Todas ríamos.

-“Gente, já eu adoro fazer! O perfeito é aquele que aprendemos assim. Sou expert nisso! Me ensinaram quando eu tinha treze anos, vocês sabem, e faço muito bem. Uma amiga me ensinou chupando um sorvete do Mac!”

Ah, claro, aulas de sexo da Van! Sempre muito hilárias. Iria ela repetir pela enésima vez a aula- sorvete-sexo que tivera na adolescência. À propósito, a Van, a mais tarada, começou cedo, aos 13. Já eu aos 18, a Cris, aos 17 e a Flavinha, aos 16. Só a Van era a mais saída, digamos assim!

E foi desta maneira! A Vanessa e sua performance fecharam a noite da madrugada no Burger King. Hambúrguer com finzinho de álcool + teatro Van eram corriqueiros em nossas agendas de fim de semana.

Deixando o papo-usar-sexo-tamanho das meninas, eu só pensava no Márcio. Sim, ele era nota mil no sexo, e ele era meu…meu namorado.

Naquela noite do meu aniversário, tudo rolou perfeitamente. E o sol já começava a despontar seus primeiros raios por meio das frestas da janela. O apartamento do Márcio era super confortável. Cirurgião, ganhava legal e mantinha uma vida bem interessante! O quarto era espaçoso e aconchegante, fato ainda mais presente naquele momento de amor.

Sim, leitor! O Amor existia sim. Porque não? Tenho trinta? Tenho! Posso sonhar ainda? Posso! Posso namorar alguém sério e casar? Sim! Mas, o cara é de balada, não? É, mas sou uma das lendas. Já levei tantos tombos…estou calejada no assunto homem-safado. Mas, tudo pode mudar, não pode? Quem sabe o positivismo exagerado da minha prima não tenha algum sentido, alguma verdade?

Sim, o Amor existe, leitor. Não tente me convencer do contrário. Daqui a pouco vou conversar com o meu namorado, e aí, ele saberá que estamos namorando. Bingo! Vamos parar total de freqüentar aquela balada. Certo, certo! Eu e as bonecas, assim ditamos: vamos lá para beber e dançar, mas é fato que estamos também à procura. E lá tem mais safado que grão de areia no deserto, ou açúcar num copo de chocolate com chatilly, mas exceções existem, caro leitor. Não me venha com um balde de água fria! Do contrário, posso fechar o diário agora e jogá-lo na descarga. Deixa eu amar, por gentileza!

Sim, como é bom ter um namorado com ele, que me ama e tal. Estávamos abraçadinhos e estava tão gostoso! Sou uma cinderela agora, uma princesa!

-“ Já sei, vou ao banheiro e mandar um torpedo de que estou namorando para as meninas!”- pensei.

Deixei o Márcio junto aos lençóis de nosso amor. Ele dormia como um anjo. Peguei meu celular e caminhei em direção ao banheiro. Lá, me olhei no espelho, sentindo-me viva e feliz. Finalmente, a espera teria valido a pena. O Márcio nunca estivera tão atencioso, gostoso e apaixonado.

Hum…

Idéia clara!….

Digitei:

-“Fla, Cris e Van…sorry, bonecas, lindas, mas vocês perderam a quarta integrante do quarteto-balada. Estou namorando…n-a-m-o-r-a-n-d-o!”

Send!

Pausa!

Tempo!

O amor e suas possibilidades! Vou casar, ter filhos, netos….

-“Hum, vou comprar uma camiseta para o Márcio, amanhã, quando formos ao cinema!”- pensei. Detalhe: não havíamos combinado um cinema no domingo, mas é básico-obrigatório de todo casal o cinema aos domingos.

Refletindo…Quer coisa mais óbvia do que as cadeiras dos cinemas aos domingos? Dá para contar nos dedos os solteiros, ou aqueles que vêm somente com amigos ou qualquer outra companhia. Não sei quem foi o burro-inteligente que inventou isso! Burro porque poderia também faturar com os solteiros aos domingos, pois domingo, ou se vê solteiro enrolado no cobertor, em casa, ou em pagodes e churrascos de conhecidos. Detalhe: domingo é palco do pagode ou do sertanejo nas poucas casas noturnas que abrem. Nem curto! Mas, na ânsia do não-tenho-nada-de-bom-pra-fazer-nessa-droga-de-domingo, já freqüentei pagodes e axés de vários tipos. Ainda sobre o inventor, inteligente foi, pois casal tem que sair de domingo, tem. E parabéns! Os casais escolheram o mundo filme-pop-corn para terminar seu fim de semana. Tão pouco importa o filme, o importante é namorar no cinema.

(risos sarcásticos)

Idéia inexata!

Em tempos de solteira(porque agora namoro, leitor), cheguei a amaldiçoar as cadeiras dos cinemas, porque olhava para a direita, estavam eles lá, os casais. O mesmo acontecia à esquerda…norte, sul, leste e oeste!

-“ Vão pro motel, seus idiotas!”- pensei.

Aliás, só pensei. Imagina só, leitor, se todo o pensado fosse, de fato, falado!? A vida seria um circo ou uma comédia-dramática, e a toda hora, ouviriam-se tiros nas ruas de todas as esquinas. Todo mundo está sempre a criticar todo mundo. Sejamos sinceros? Acho que as pessoas não tem muito o que fazer na vida e em seus dias. Ora ficam no MSN fofocando, ora falando mal de alguém, nem que seja um diálogo interno. A gente só trabalha quando o chefe olha, não é verdade? E se ele não olha, a gente só trabalha para ganhar dinheiro, certo? Dinheiro = beber + comer + carro de luxo para se exibir por aí…estou certa ou errada, à lá novela Porcina?… Está aí a base de tudo. E quando o assunto não é grana, ou eventual ou raramente(falei RARO, você escutou, leitor?) alguma atitude boa para com seu semelhante, o bom mesmo é viver para exibir, fofocar, criticar, julgar, opinar…e demais outros “ar” dessa vida bonequitária. E tem aqueles ainda: “…eu odeio fofoca!”…Poupe-me meu cerebelo, by the way-apesar disso. Você não é gente? Sou! Então, vamos pela lógica matemática:

 

Gente = língua

Língua = falar

Falar = assunto

Assunto = qual o babado de hoje?

Babado = comentário, opinião

Opinião = eu penso assim e foda-se

Eu penso assim e foda-se = concordo com você, mas não agora

Concordo com você, mas não agora = discussão

Discussão = quem pensa como eu junte-se a mim

Junte-se a mim= vamos falar mal do outro

Vamos falar mal do outro = fofoca

Fofoca = crítica

Crítica =sentimento

Sentimento = ser humano

 

Portanto, gente + crítica = ser humano = fofoca

Idéia inexata!

Mas, é óbvio que o meu pensamento sobre o cinema ficou retido em meus neurônios. Eu mesma xingaria e receberia a resposta da platéia, mas somente lá no meu jardim interior.

Continuando…falando em cinema, ah sim, eu e o Márcio somos namorados agora. Ele vai falar comigo já sobre isso. Deixa só o meu lindinho acordar! E como namorados, vamos ao cinema, amanhã.

-“ Hum, enquanto ele não acorda, posso pegar o jornal e ver o que está passando nas telonas!”- pensei, à procura de um jornal.

Detalhe: a emoção era tamanha a ponto de eu deletar o verbo dormir daquela noite. A excitação da balada do meu aniversário, somada às caipiroskas de morango, e principalmente, a atenção do Márcio irromperam como um guaraná em pó em minhas veias.

-“ Dormir? Para que?…eu quero mais é VIVER!”

EPISÓDIO 7

Rumo ao cinema com ele…

 

Esquece, leitor! Sou gente e não máquina. A bateria do meu celular tocou, gritando, como um bebê quando suja a fralda. Dormi, com o jornal nas mãos, no sofá…sem querer! Óbvio, meu biológico queria. Em neste contexto, o grito do celular foi tão estridente que mal senti os pés no chão. By the way/à propósito! Pela manhã, quando acordamos, tudo é mais alto, mais claro(muita claridade no meu olho, hein!), mais tudo! Acordo sempre super mal-humorada por conta deste “mais tudo” das manhãs, além do fato de eu detestar acordar cedo, como um diabo que foge da cruz ou como minha irmã caçula que odeia peixe. Nem te conto o ódio que ela tem! Dia destes chegou a gritar em casa, quando minha mãe esqueceu de comprar a carne dela, trazendo só camarão para a mesa. A garota prodígio atacou os livros ao chão, dizendo que só leria na vida e nunca mais comeria. Um de seus ataques básicos! Ela não comeu por três dias, mas vi que escondia bolachas debaixo da cama.

Safadinha!

(risos)

Continuando…acordei! Mas, claro, certo, não estava mal-humorada. Pelo contrário, estava super bem humorada. Corri para o banheiro, me arrumei, mas mantive o ar “acabei de acordar”. Passei até brilho nos lábios! Minha intenção era que o Márcio visse cada vez mais que sou linda, até mesmo no descabelado da manhã. Pensaria ele:

-“Nossa, que mulher linda! Acorda linda, com cores, sem bafo, cheirosa, e com um charme lindo, assim, mesmo toda despenteada! Vou casar com ela!”

Bem, fui lá e me produzi para ficar com ares de não-produção. Ele ainda dormia. Caminhei até a cozinha, e preparei um café da manhã. O meu namorado não tinha nada em casa. Coisa de homem. A sua geladeira estava 89,9% vazia. Vislumbrei apenas latas de cerveja, um pedaço de queijo, tomates e um pacote de Doritos, o salgadinho, dobrado.

-“Nossa, para que colocar o Doritos na geladeira!?”- pensei, estranhando.

Mas, se veio da cabeça do Marcinho, para mim, é lei.

Hum…Sentia-me meio cretina. Entretanto, acho que inconscientemente. Lei? Ora bolas, o que o homem fala é lei? De onde tirei isso?…Olhei para o lado e vi o unicórnio…Melhor ainda, vi a fadinha do Peter Pan.

-“Claro, é lei!”- concluí em meus pensamentos, totalmente convencida.

Embora com nada, fiz da pedra um leite condensado: suco de laranja+ torradas amanteigadas. Transformei o pão de ontem em torradas chiques, para qualquer restaurante grã-fino não botar  defeito algum. E subi, no intuito de namorar e dar comida para o meu lindo namorado.

-“Bom dia, meu anjo!”- falei, dando um beijo em sua boca. Os olhos do Márcio estavam entreabertos. Ele estava quase acordado!

-‘Oi meu docinho! Café para mim? Hum, você mora no meu coração mesmo, hein!”- disse o gato, erguendo-se da cama para sentar, colocando os óculos. Aliás, lindérrimo e todos os “érrimo” ele fica de óculos. Super charme!

-“Cuidei de você e já preparei seu café!”

-“Oh, coisa da minha vida. Você sabe que é muito especial para mim, não?”

-“Claro que sei, não é?…Estou ciente, só não estou falando para não te deixar convencido!”- pensei.

Pensamentos.

Dei um sorrisinho travesso, outro beijinho, e aí sim disse:

-“Não sou, meu anjo. Você nem está muito aí pra mim!”- argumentei, erguendo os ombros, fazendo charme. Claro, dando uma de difícil e carente. Talvez o pequeno teatro desse certo, e aí, então, ele falaria no assunto que tanto quero.

-“Claro que estou! Você é tudo pra mim!”

Pausa!

Comida!

Terminado, sentei ao lado dele. Marcitcho ligou a TV e comentava assuntos triviais comigo, e nunca “aquilo do namoro”. Ele dizia ter gostado da festa, da noite de ontem, do filme que estava passando, e nada. Estava abraçado comigo, mas papo sério que é bom nada!

Idéia obscura!

Os minutos corriam com velocidade, como um maratonista na última curva da pista.  Mas, antes que o maratonista cruzasse a faixa da chegada, tinha eu que me manifestar. Do contrário, teria que aceitar o bip ou celular do Marcio, tocando rumo ao hospital. Ainda desconfio dos muitos perdidos e saídas repentinas que ele me deu em nossos oito meses juntos. “…o hospital me chama, tenho que ir gata!”…Hum…Sei…Idéia clara!

Pois bem, se ele não tomou a atitude, eu tomaria. Afinal, as mulheres são mais corajosas que os homens. A ciência explica!

Ops…

A ciência explica?

De onde tirei?…Ah, assisti no Discovery Chanel.

- “Já sei, vou falar do cinema e emendar com o assunto!”- refleti meu plano pseudo-diabólico.

Pausa!

- “Meu lindo, hoje estava a fim de pegar um cineminha à noite. O domingo está tão gostoso. Vamos? Ah, estreou aquela comédia que quero muito ver. Vamos!?”- convidei o cidadão, com ares de entusiasmo-exagerado.

Ele me olhou sério, ao mesmo que bobamente. Estranho! O que ele estaria pensando? Que resposta ele daria? Deus do céu! Tem alguma cartomante aí on line capaz de me responder tal questão de imediato?

-“Puxa, essa mulher está no meu pé! Ontem fiquei o tempo todo ao lado dela, e hoje, de novo, ela quer. Ela quer namorar, quer coisa séria! Quer sair sexta, sábado e domingo comigo. Isso é coisa de namoro!”- imaginei ele pensando desta forma.

Será que ele pensou isso? Não sei, não sou cartomante, tão pouco vidente, médium, ou qualquer entidade do tipo.

Deixemos ao curso da própria história desenrolar tal desfecho!

Aliás, é curioso como pensamos por nós, claro, pois detemos posse de nosso cérebro, mas pelos outros também. Se alguém inteligente assim nascesse poderia inventar uma fórmula de intercruzar visivelmente tais diálogos. Seria um espetáculo! Creio que a situação provém da faceta egoísta natural do ser humano. Nós queremos reger, nos mesmos, a orquestra toda. A nossa e a dos outros! O mais enfático ocorre em conversas mais aflitas, em que nosso ego nos pega perguntando e respondendo pelo outro ao mesmo tempo. Só que as respostas do outros, sugeridas por nós, para nos agradarmos, ficam somente em nossos pensamentos. Não entendo, então, o porquê do desperdiçar neurônios! Deixe que o outro responda por si só…dê uma banana a tudo isso! Utopia! Sonho! Se fosse possível, tudo seria brilhantemente diferente, principalmente naquela hora. O Márcio não responderia aquilo que pensei, mas sim:

-“Claro, linda, vamos ao cinema. Aliás, vamos emendar o dia? Você fica aqui e passamos o dia todo juntos, afinal somos namorados!”- suposição.

Idéia inexata!

Ele não respondeu nem isso, nem aquilo. Mas, uma surpresa:

-“Sim, meu doce, com você quero tudo!”

Lindo! Vislumbrei mais três unicórnios nas minhas vistas. Um sonho! E mais algumas fadinhas!

Poupe-me de mais palavras!. Naquele momento, para mim a frase “…com você eu quero tudo!” transmutou- se em “…estamos namorando!” Bastava! Frase mais alguma eu precisava, pois detinha a certeza em minhas mãos. O Marcinho jamais passara dois dias seguidos ao meu lado, e se ele quisera, era porque me amava…queria namorar.

E neste contexto, de chofre, meu celular tocou. As respostas de torpedo das três amigas gritaram no aparelho. As bonecas se manifestaram, e eu, fui correndo ver as respostas. Fui ao banheiro novamente, e li.

- “Sua danada, verdade mesmo!?”- sms da Cris.

- “Até que enfim, né? Sucesso, amiga!”- sms da Favinha.

- “Mesmo? Sério?”- sms da Vanessa.

E no embalo gossip daquele festivo momento, liguei para as três, colocando-as na conversa em um mesmo telefonema. Tudo em off, claro, no banheiro!

-“Oi meninas, vocês acreditam nisso!?O Márcio me pediu em namoro!”- falei para elas.

- “Ninguém te pediu em namoro!”- comentou meu Ego.

-“Dá licença, por favor. Pediu sim!”- argumentei, dando uma banana ao espelho do banheiro, enquanto segurava o celular com a outra mão.

- “Você tem certeza?”- perguntou meu Ego ironicamente, exibindo olhares de discórdia.

- “Claro que sim! Você acha que sou tão burra sim?”- respondi, nervosa.

-“Depois não vai ficar chorando sozinha por aí…Você não me venha dar trabalho depois com aquela ladainha!…porque depois, sou euzinho que tenho que cuidar de você, não é?”- meu Ego insistia.

-“ Tá! Cai fora!”- respondi, o expulsando do banheiro.

Tempo!

-“Nossa, não estou acreditando!”- comentou a Van, com voz semi-empolgada-assustada – “O que deu nele?”

-“É isso aí, garota! Agora você é mais uma das lendas como eu!”- exibia a Flavinha- “ Se aconteceu comigo, poderia acontecer com qualquer uma de vocês!”

-“Gente, estou a mil, não me agüentando. Há oito meses espero esse cara me pedir em namoro. Nunca achei que ele me levaria a sério, pois é cara de balada, clássico. Mas…!”

-“É isso, aí, garota…você é do time das 1% mesmo. Entrou para o clube!”

- “Só posso dizer que estou de queixo caído!”- falou a Van.

-“É, mas finalmente, então…ai, perdemos nossa amiga da balada?”- perguntou a Cris.

-“Sim, né? Agora vou namorar sério! Vamos fazer só passeios de casais, concorda?…Um dia vocês também vão conseguir, vou torcer!”- dizia eu, feliz- exibicionista, um tanto ridícula. Fazer o que? Estava eu a fim de exibir mesmo, afinal, permanecer no ringue por oito meses era coisa trabalhosa e não para qualquer uma.

-“Ai, amiga, se tudo deu certo então, só posso dizer que estou feliz por você!”- finalmente a Van me deu uma palavra de contentamento. Nítido que a Van estava com inveja.

Tempo!

-“Não seja patética, Agatha. Por que você acha que está despertando inveja?”- perguntou o meu Ego, sempre grudado em  meu cangote, espionando-me.

-“Ora bolas, conquistei um cara de balada. Venci a guerra, virei rainha…dei um gol, perdi dez quilos, tirei dez na prova…você não conhece tais sensações de VENCI TUDO?”- questionei a ele, ironizando a sua presença irritante a toda hora a me questionar o certo e o errado.

-“E quem te disse isso, mulher? Vê lá se esse homem está do seu lado mesmo, hein? Ontem, eu vi ele conversando com uma loira na pista de dança!”- ainda o Ego.

-“Afe, que droga! Nem venha com essa…a Cris estava lá e disse que não era ele com a loira!”- eu me irritava.

-“Ah tá, amiga é amiga, mas nem sempre amiga diz 100% verdade. Que mundo você vive, Agatha!?”- meu Ego dizia.

-“Basta, poupe-me!”- indaguei, mas ainda com os pensamentos em mente.

Falou meu Ego a verdade? Mentiu para mim? Bem, verdade, não sei qual é a do meu Ego!

Inveja?

Porque sempre quando alguém duvida de nossa felicidade logo tratamos de intitular tal capítulo como Inveja? Está aí mais um clichê humano. Mas, caro leitor, e se realmente a desconfiança for sincera? É clássico nos defendermos sempre com a máxima : “…tal tem muita inveja de mim!”…Mas, porque? Nem sempre, óbvio, tipo básico!

Ponto para a dúvida! Ainda mais com aquele cara! Todas nós sabíamos o passado do Márcio, o baladeiro de plantão, e louco por um rabo de saia.

Ponto para a mudança! Mas, caro leitor, era certo que o vinho não se transforma em água, mas de repente, o casulo pode virar borboleta. Falta apenas tempo para tal sucesso.

Poupe-me meu cerebelo! E a inveja existia, assim concluí. As bonecas queriam meu bem, afinal, estávamos juntas há anos. Nos adoramos! Mas, é básico que elas também queriam namorar. E eu seria a primeira a sair daquela vida zuada de balada para começar a pensar em casamento.

agatha_casamento

-“Um…dois…três…Nossa Senhora de Lourdes, me proteja Deus pai e Nossa Senhora na terra! Casamento, Agatha? Perdi algo ou você não está muito apressadinha!?”- satirizava o meu Ego.

Ignorei-o!

O Márcio era meu.

E neste enlevo, despedi-me das meninas a fim de não despontar pistas no cérebro do Márcio. Ele, certamente, imaginou que eu fosse ao banheiro fazer qualquer outra coisa, menos papear com as bonecas.

Retornei e ficamos juntos por mais um tempo! Até que o meu gato me deixou em casa, como um príncipe, um total gentleman.

-“Tchau, meu amor! Até mais tarde!”- beijei-o na boca, ao sair do carro.

Ele nada disse. Mas, me respondeu com os olhos e o toque dos lábios. Sim, ele estava apaixonado.

Tempo!

Satisfação!

Cheguei em meu quarto feliz da vida. Tirei os sapatos, a roupa, e fiquei a olhar para o teto, para os cantos, para tudo. Liguei o som bem baixinho e cuidei de descansar. Mas, é claro que não daria. A excitação era tamanha! O Márcio nunca tinha estado tão presente, tão lindo, e ainda me dando presentes, coisa que nunca havia feito. Havia se apresentado para meus primos como se da família assim fosse. Eu estava namorando! Após alguns bons anos sem namorar, e só pular de ficante para ficante, eu teria um namorado. E que sorte a minha, caro leitor! Começar a era balzaquiana já namorando. Não, definitivamente eu não era mais uma solteirona. Teria uma companhia para viajar, ir ao cinema aos domingos, apresentar aos meus pais e família, levar para o jantar de casais, etc… Sim, eu iria agora no jantar de casais com gosto! Totalmente feliz! À propósito, vou propor eu mesma um jantar de casais no próximo fim de semana.

(risos)

Fim às baladas, a todo aquele-processo-obrigatório do fim de semana! Muitas vezes, na falta do que fazer e no intuito de driblar a carência, por mais cansada que estejamos, vamos para a balada. E, nossa, não estou afim! Cansei de ser boneca na estante, prateleira! Cansei do mercadão! Som? Sim, porém ouviria junto com o Márcio. Mas, fim aos clichês de observar todo-mundo-pegando-todo-mundo. Fim aos beijos estranhos, do assédio dos caras casados-mentirosos, dos caras nos tratando feito bonecas…da bebedeira e da deprê pela manhã.

É básica a depressão pela manhã após a balada! Um vazio gigante nos corrói, assim como o álcool em nosso sangue. É péssimo a ressaca! E por mais acostumadas a balada que estejamos, o dia seguinte é o pior, como um vulcão em erupção. Aliás, quem foi o burro de plantão que em sua atividade entediante inventou o dia seguinte após a balada? Não pelo significado do nascer do sol em si, mas pela sensação que o sentimento evoca: o corpo físico total estragado, e a mente, o coração, vazios. E por que? Beijar na noite, beijamos! Mas, sozinha, continuamos. E é quase certo que aquele cara beijado, se lembrar de você, vai chamá-la de “mulher de balada” ou coisa do tipo, ou seja, não vai passar daquilo.  

Tempo!

Reflexão!

Mas, finalmente, eu estava namorando. Feliz da vida! Tudo havia mudado!

Fiquei a planejar meu namoro, ao som de Djavan e minha preferida…

Assim
Que o dia amanheceu
Lá no mar alto da paixão,
Dava prá ver o tempo ruir
Cadê você?
Que solidão!
Esquecera de mim?

Enfim,
De tudo o que
Há na terra
Não há nada em lugar
Nenhum!
Que vá crescer
Sem você chegar
Longe de ti
Tudo parou
Ninguém sabe
O que eu sofri…

Amar é um deserto
E seus temores
Vida que vai na sela
Dessas dores
Não sabe voltar
Me dá teu calor…

Vem me fazer feliz
Porque eu te amo
Você deságua em mim
E eu oceano…

Adormeci, mas com o celular colado ao meu lado. O Márcio me ligaria às seis da tarde, e lá iríamos ao cinema, namorar e curtir o domingo.

EPISÓDIO 8

 

Ops…acordei em um susto, como o filme Massacre da Serra Elétrica. Pois bem, quão antigo é esse filme! Falando em filme…

-“Nossa, o Márcio não me ligou ainda!”

Estranhei! Mas, acreditei ser ainda umas cinco da tarde. Procurei meu celular e ele tinha caído no chão. Peguei-o e a maior bomba do planeta Terra invadiu minhas pupilas. A impressão que eu tive era que as sete Cataratas do Iguaçu tinham caído em meus ombros e reflexão.

Nove e quinze da noite. SIM! O relógio batia a fatídica hora 21h15. E, nada, ZERO ligações perdidas.

-“Como!?”- sussurrei, com o estômago apavorado.

Levantei às pressas! Corri para o andar de baixo, no intuito de perguntar se alguém tinha me ligado. O Márcio nunca ligou em minha casa, somente no celular, mas talvez, naquela noite, teria tido ele algum problema. Claro!

-“Mãe, alguém me ligou?”- perguntei, aflita. As duas, minha irmã e mãe assistiam a um filme chinês, juntas.

-“Não, ninguém!”- minha mãe.

-“Absolutamente!”- a garota intelectualóide.

-“Tem certeza?”

-“ Sim!”- minha irmã, novamente.

Não, impossível! O que aconteceu com ele?

-“Não te disse?”- ironizou meu Ego,fitando-me no início da escada.

Ignorei-o e corri para meu quarto.

Iria ligar para ele.

-“Onde estaria o meu namorado!?”- refleti.

Ao ouvir a palavra “namorado” sendo dita ao meu cérebro, senti um gelo no estômago. Uma pontada do Ridículo e do Engano brochou meus sentidos. Hum…Idéia inexata! Teria o safado se safado novamente?

-“Vou ligar!”

Tempo!

-“Não é melhor deixar que ele te procure?”- sugeriu meu Ego.

Ignorei-o novamente.

E com avidez de leoa, peguei o celular em minhas mãos e liguei para o Márcio, o cara. O semblante “namorado” deu um tempo naquele instante de dúvida cruel.

Bingo torto!

Caixa postal!

Tocou, tocou, tocou e caixa postal, novamente!

Duas ligações já! Na tentativa de uma terceira, imaginei que estaria dando minha face para a crítica de outros, que obviamente, me julgariam uma desesperada. Sim, era preciso um outro plano para descobrir o paradeiro do Márcio.

-“Onde está o bandido?”- falei, em voz alta.

O príncipe virou sapo, novamente. E o amado, um completo bandido. Tipo básico, coisa total do Márcio.

Nunca! Preferi pensar em qualquer outro motivo para o desaparecimento, menos dar o braço a torcer e concordar com a prosa do meu Ego. Uma outra explicação seria dada, a fim de conter minha aflição e dizer o porquê da ligação acertada para as 6 da tarde não ter acontecido..nem às seis…nem às sete…nem às oito…nem às nove….nem às nove e meia…já eram nove e meia da noite!…Certamente, o cinema já era!A última seção acontece às nove da noite, e todos já entraram na sala, com exceção para a minha pessoa e sua agora “brilhante-pedante” companhia.

-“Cachor…!”- suspirei, não podendo completar a palavra, pois uma pitada de esperança urgia em meu cerebelo.

Armei, como um batalhão planeja a sua próxima batalha, a descoberta do paradeiro do Marcio. Caso o desgraçado, não mais bandido(bandido é coisa light perto do que ele havia se tornado naquele agora) tivesse se safado, eu descobriria. Daria um jeito de manipular a tecnologia. Sim! A bina do celular! Vou pegar o celular da minha irmã e ligarei.

-“Sim, ele não sabe o número! E caso não esteja querendo me atender, porque está vendo meu número na bina, vai atender outro!”

Detalhe: o plano-guerra já havia sido feito em tempos antigos. By the way-à propósito, qual mulher não cometeu tal papelão? Caso exista, por favor, apresente-se!

Aliás, quem foi o burro-inteligente que inventou a bina? Inteligente por que assim nos livramos de alguns que não queremos atender, afinal, não temos tempo a perder. Entretanto, burro, pois permite que sejamos excluídos sem ao menos a certeza, e a tal incerteza, dói muito mais do que um telefonema desligado na cara. Vale mais para a auto-estima pelo menos o ouvido que te atende e depois chuta comparado a aquele que te ignora logo no primeiro take.

Impossível! O Márcio me atenderia! Após aquela atenção toda dada a minha pessoa no aniversário, seria ele capaz de interpretar tamanha paixão? Seria um ator? Sim, caso sua máscara caísse, daria a ele o prêmio “oscar cafajeste do ano”. Deveras ser esta uma excelente idéia ao criador das coisas. Faturaria horrores com a premiação e ainda lhe sobraria dinheiro para comprar o Monte Everest.

-“Ele falou que te ama?”- perguntou meu Ego- “Não vi ele dizendo nada disso!

Ignorei-o, novamente.

Meu Ego, às vezes, parece um bezerro desmamado, um gravador de fita infinita, o filme Titanic três vezes seguidos! Quem dera matá-lo para assim calá-lo para todo o sempre!

Continuando…

Corri no quarto da pequena, e peguei seu celular. O aparelho em nada se parecia com o de uma menina de doze anos, mas de uma mulher. Minha irmã não tem 12, tem uns 42, assim imagino.

Disquei, com dor no coração!

Bingo!

Ele não atendeu! Ufa! Caso fosse uma fuga em relação aos meus telefonemas, ele teria atendido a este número, pois não conhecia. Ou seja, caro leitor, algo havia acontecido com o Márcio, novamente, meu namorado.

O que fazer?

SOS bonecas!

Liguei para a Vanessa. Ops…a Vanessa estava desconfiada. Melhor ligar para uma das lendas, afinal, preciso pensar positivo, apesar do mistério da maré-terror.

- “Flavinha, me ajuda, o Márcio sumiu!”

-“Como?”- interpelou minha amiga, com voz de sono.

-“Sim, nós havíamos combinado de ir ao cinema hoje à noite. Mas, claro, não estou no cinema agora. E ele não me ligou!”

-“Você tentou no celular dele?”

(Ai, a Flavinha tem cada pergunta óbvia!)

-“Duas vezes!”

-“Hum, não liga mais…deixa que ele te procura…ele deve estar no hospital! Ser médico não é fácil né? Vai saber se ele teve que fazer alguma cirurgia em cima da hora!”

-“Verdade, né!?”- disse, sentindo um alívio.

Alívio! Óbvio que no calor do diga-o-que-quero-ouvir, procuramos por palavras daqueles que irão realmente nos dizer aquilo que queremos ouvir.  E como a Flavia sempre foi a maior entusiasta da minha relação, em razão do papo das lendas e tal, eu me sentia mais segura ligando para ela.

Entretanto,

Teria a Flavinha total razão sobre o paradeiro do rapaz?

-“Mas, sei lá, ando desconfiada. Acho que vou ligar na casa dele em último caso!”- disse, caminhando em direção ao quarto da minha irmã, no intento de colocar de volta o celular.

-“Não, amiga, agüenta…ligar muito dá sinal de desespero. Vocês estão namorando, mas é o começo ainda! Melhor ficar por cima da situação. Deixa que ele te liga!”

Ao ouvir “vocês estão namorando”, senti uma vontade imensa, como um galão de água de cinco litros, de contar para a Flávia que o Marcio não me pediu em namoro. Entretanto, segurei. Diante da prova que mais cedo ou mais tarde surgiria, não estava a fim de pagar qualquer mico. By the way/ à propósito, leitor, quem está a  fim de pagar mico nesta vida? Ninguém! E por isso, teatralizamos um pouco de tudo. Óbvio! Idéia inexata!…E teatralizamos em todas as fases. Na ânsia da revelação(queria contar que namorava e tal), teatralizei e disse o que não foi dito. Não sei ao certo, mas é clássico adiantarmos os aplausos, antes mesmo do desfecho da peça. E agora, platéia, cá estou só no intento de resolver tudo. Desmentir? Jamais! Afinal, tenho reputação e não estava objetivada a passar pelo ridículo de ter inventado algo.

-“Mas, estou muito ansiosa. Será que algo ruim aconteceu a ele?”- questionei, sendo neste instante totalmente observada por meu Ego, que não me poupou de seus comentários desnecessários.

-“Ai, criatura, nada aconteceu de ruim com ele…você devia estar calejada com esse Márcio…o que você acha?…que um caminhão o atropelou e ele está na UTI agora, só esperando voltar do coma para ligar para você!”- falou meu Ego.

-“Você é muito palhaço mesmo, devia ir para um circo!”- respondi, irritada, a ele.

Tempo!

-“Aguenta, amiga. Ele vai te retornar! Ele te tratou super bem ontem, te pediu em namoro…ele deve ter tido algum imprevisto. Não tem sentido algum ele sumir. Relaxa!”

Desliguei o telefone. O meu nome naquele agora era Nervosismo, e não mais Ansiedade. À propósito, não sei qual é o pior de tais sentimentos? Idéia inexata? Seria uma combinação?

 

Momento DEFINA:

 

Ansiedade= é uma característica biológica do ser humano, que antecede momentos de perigo real ou imaginário, marcada por sensações corporais desagradáveis, tais como uma sensação de vazio no estômago, coração batendo rápido, medo intenso, aperto no tórax , transpiração etc.

 

Hum…Nervosismo também o é! Tudo! Enfim, meu corpo nutria-se de um completo rock metal em meu sistema nervoso, e eu não via a hora de tudo aquilo se transformar em uma valsa à la lagoa dos cisnes. By the way/ à propósito, burro foi aquele que inventou a ansiedade! Já percebeu, leitor, o quanto se perde por conta da estúpida ansiedade? Não é sem propósito que os célebres diálogos: “…não coloque o carro na frente dos bois”, ou ainda “…a pressa é inimiga da perfeição” têm o seu maior significado na sociedade. Quando estamos dominados por tal veneno, agimos feito imbecis sem cérebro, pois que tem cérebro pensa, e quem pensa, pensa duas vezes antes de agir, e quem pensa duas vezes antes de agir calcula melhor a consequência, e quem calcula melhor a consequência corre risco menor de se expor ao mico.

Sim, total verdade!

Idéia clara!

E neste ensejo, procurei me manter calma. Fui até a cozinha, peguei um copo de leite e subi para o quarto, novamente. Dei até uma espiadinha no filme que minha mãe e irmã assistiam, como se de repente, o filme me interessasse. Milagre! Óbvio, básico que eu interpretava para mim mesma. E sendo uma atriz para a minha própria platéia, nossa, não faltaram risos oriundos dos lábios sanguinários do meu Ego.

-“Ah, tá…você pegou um copo de leite, e está assistindo filme agora? Tipo, esqueceu do Márcio e da ânsia dele retornar! Ah, tá, conta outra!”- ria, meu Ego.

Platéia, por gentileza, onde posso encontrar um veneno de rato às dez da noite do domingo para assim eu assassinar um ser aqui!? Se meu Ego não falecer hoje, faleço eu!

Continuando…

Idéia clara! Cansei-me de fingir tranquilidade. A chinezada no filme se transmutara no rosto do Márcio. Eu o imaginei assim: chinês, safado e transando com chinesas. E no impulso da raiva e ansiedade-de-matar-a-qualquer-preço, subi para meu quarto, deixei o personagem segura-mulher-vendo-filme-e-nem-aí-pro-celular e me tornei eu mesma, novamente.

Sentei em minha cama e respirei.

Tempo!

De chofre, como um susto no trem fantasma, o celular  tocou, mas não o meu. O som sinistro provinha do quarto de minha irmã. Seria uma amiga dela? Ou, Márcio retornando?

Corri, como uma onça pintada em busca de um pedaço de carne no meio da selva da África ou Pantanal, e vi o número.

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666?”

Não!Estava eu vendo o número do demônio? Praticamente! A bina apontava o número de celular do Márcio. Indaguei:

-“Cachorro, retornou para o celular desconhecido e não para o meu!”

Irritada, hesitei, mas atendi. Ele ouviria poucas e boas.

-“Alô, me ligaram deste número. De quem é?”

Era a voz do agora, novamente, cretino…cretinaço-palhaço-de-circo!

-“Sou eu…”

Um silêncio! Ele reconheceu minha voz.

- “Aghata?…Gha?…ou linda!”- disse ele, meio tropeçando nas palavras. Era claro que o tonto estava sem-graça.

Bingo! Peguei-o no flagra.

-“O que aconteceu? Porque não me ligou? Não íamos ao cinema hoje?”- soltei o verbo mesmo, amarga.

Silêncio!

Revelação!

-“Oh, linda, o hospital me chamou e tive que vir para uma cirurgia. São coisas de médico!”

-“De novo? Sempre é isso! E no caminho, nem um aviso, um torpedinho, deu para você me mandar?….E, você não retornou para o meu celular, e sim para este! Te liguei duas vezes, você viu!”

-“Calma, Agatha, não sai do salto, não sai do salto…!”-suspirou meu Ego.

-“Ah, de quem é esse número?”- o curioso-cretino ainda queria detalhes do meu plano-caça-ao-paradeiro-do-enrolão.

-“Não interessa!”- fui, curta e grossa. Lógico que a mentira era nítida. Ouvia um som de música ao fundo do telefonema, e pelo que aprendi desde o jardim da infância, não existem músicas no centro cirúrgico de um hospital – “Onde você está agora?”

-“Oh, meu bem, estou bem no meio do centro cirúrgico!”

Bingo torto!

Alguns homens nos julgam com cara de palhaça de circo.

-“Mentira!…”

Pausa!

-“Linda, você sabe que eu te adoro né?”

Um momento, platéia. Ouvi eu a frase “Adoro?”…Pelo que sei, o “adoro”, para não dizer “amo”, é o mesmo que dizer que aquele ou aquela é bonitinho ou bonitinha, ou seja, o feio arrumadinho.

-“Adora? Achei que você me amasse, fosse apaixonado por mim!”

Tempo!

-“Calma, Agatha, não se entregue assim!”- falou meu Ego, diante de um delegado e um escrivão ao meu lado. Eu estava mesmo em uma delegacia me entregando, e ainda, a todas as provas do crime.

Continuei….

-“Você sabe que eu sou apaixonada por você, Márcio! Você mentiu, não quis ir ao cinema e me deu um perdido no celular! Eu amo você demais e faria de tudo para ficar com você, mas você não tem colaborado! Porque? Sou feia, ruim? O que eu tenho que não te agrada? Sou ruim de cama? O que eu não tenho que as outras têm?”- eu disse, com voz melancólica-chorosa-pedinte.

Pronto, a festa-zomba estava completa! O balde cheio de cuspe e as calcinhas todas expostas no varal!

Ei, carcereiros, me levem imediatamente ao calabouço, às grades, pois assumi meu crime agora, e tão pouco preciso de julgamento! Sai do salto, vesti um chinelinho de borracha velho e lavei a tapeçaria, ou melhor, a privada do cretino-que-adora-levar-mulher-em-banho-maria.

Hum…

Idéia inexata!

-“Para que se expor assim, Ágatha?… o cara já deu o recado logo quando te conheceu. Ele disse que não tinha como ter compromisso e você insistiu!”- falou o meu Ego, relembrando-me do momento “…não quero coisa séria, mas você está no meu coração, portanto, vamos curtir!”- frase esta dita pelo Marcio no primeiro mês de rolo e que fiz questão de apagar nas memórias impossíveis de serem apagadas.

Leitor, quem nunca fingiu que esqueceu de algo, para, enfim, não ter que confrontar com tal algo?

Silêncio!

Tempo!

Resposta!

-“Você sabe que eu te acho linda! Maravilhosa, mas, Gha, eu sou muito ocupado. Não tenho como te dar a atenção que você merece. E sair sexta, sábado, domingo, é coisa de namorado, e eu não estou podendo no momento. Quero continuar a curtir com você, pois acho que a gente tem um lance bacana!”

Um ponto pro cocô!

-“Lance!?”- indaguei.

E em meio ao título dado ao meu “namoro”, que por ele era chamado de “lance”, dei uma de Flavia-barraco e perdi as estribeiras. Ops…me contive. Bastou apenas um desligar. Bati o telefone na cara dele, sem dizer uma única palavra. Bati, desliguei sim, certamente! Era demasiado sangrendo ouvir a mesma frase oriunda da boca daquele homem, frase esta que ele sempre fez questão de me dizer, em meio a beijos, carinhos, saídas, baladas e promessas, que nunca se cumpriram.

Meu Ego me fitou e me abraçou. E eu precisava mesmo, daquele abraço, naquele momento.

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EPISÓDIO 9

 

Deveras estática permaneci? Não sei ao certo! O que minha mente vislumbrava com devoção era a maior verdade: sim, ele novamente, o Márcio, havia me enganado. Entretanto, não sei ao certo se o caso era um engano, pois ele realmente não havia me pedido em namoro. O fato é que acreditei, como quem agarra a oportunidade com unhas e dentes, de que aquele cara-de-balada tinha se apaixonado por mim. Idéia inexata!..A dúvida permeou meus pensamentos.

Imaginei eu coisas além do que via? Será que a “paixão” “demonstrada” por ele não era fruto apenas da minha imaginação fértil e ávida para ter um namorado?

Não sei, caro leitor. Entretanto, é básico, tipo óbvio, que o ser humano detém tal proeza e poder em transformar tudo o que vê, segundo os ditames de sua própria realidade. O que é realidade para mim, pode não ser para você. Por isso, a lei expõe a sua máxima: fiquemos atentos ao território em que estamos pisando, pois podemos estar pisando em ovos. E claro, cuidado com a exposição, porque depois, é você que tem quem ficar nua frente ao grande público. O mico será seu.

Do contrário, a máxima também fica exposta: alguns homens, ou melhor, muitos deles,  adoram dizer que nos adoram, e tal, e adoram também agir como namorados, digo, pseudo-namorados, sendo que na verdade, não se intitulam como tal. Então, porque nos ligam, nos presenteiam, nos enchem de carinho e ainda dizem que somos muito importantes para eles? É certo que a mulher se engana e inventa um conto de fadas em sua mente, que na verdade nem está acontecendo, entretanto também é certo que muitos homens adoram “brincar” de namoradinho, só para conseguir sexo, e é claro, uma mulher no pé deles. Resumo: uma boneca para brincar às vezes!

Ops…é a hora da agenda! Preciso cuidar para quando precisar, ter!”- assim, eles, pensam.

E nesta de cuidado, eles nos enchem de ilusões. O Márcio era de balada, ou seja, 99% de chance que eu não seria levada a sério, mas, diante dos meses e de seus carinhos, e da máxima:

-  “…não estou preparado para ter algo sério hoje, estou sem tempo, mas te adoro viu?..quem sabe um dia! Ah, e se for para ter uma namorada, é claro que a minha primeira opção vai ser você, linda, pois você mora no meu coração!

Traduzindo:

-“…não estou preparado para ter algo sério hoje, e não te adoro tanto assim, do contrário, te namoraria. E tenho tempo sim, mas prefiro gastar com outra coisa. Ah, e se for para ter uma namorada, não seria você, pois eu já teria te assumido. Mantenho você para ter alguém gostosa para transar, e homem precisa de mulher. E para você não perceber nada disso, e te deixar bem mansinha, te trato com “carinho” e “atenção”!..até aparecer alguém que eu queira realmente namorar!”.

Dicionário! Seria interessante se tivéssemos um dicionário para tais situações, a todo o momento. Na dúvida, abriríamos as páginas e as frases seriam traduzidas de imediato. E neste contexto, obviamente não ficaríamos com a cara de tacho, cara que fiquei quando ouvi os últimos dizeres do Márcio. Teria ele sido mais sincero se desde o começo tivesse me dito a real, do tipo:

-“…ei, você não passa de uma boneca para mim, a qual eu curto brincar às vezes!”

 

Momento DEFINA:

 

Boneca (do espanhol “muñeca“) é um dos brinquedos mais antigos e mais populares em todo o mundo. Reproduz as formas humanas, predominantemente a feminina e a infantil. As bonecas podem ser confeccionadas com diferentes materiais, acompanhando a evolução dos mesmos e as novas tecnologias. Em muitas culturas, ela é um brinquedo associado às meninas, no entanto, existem versões de bonecos direcionados aos meninos, guardando ambos, como elemento essencial para a sua caracterização, as formas que lembram a humana, ou humanizada. As bonecas, e suas variantes masculinas, diferenciam-se de outros tipos de bonecos que representam outras formas de vida, como animais do mundo real, do mundo da fantasia, da literatura, do cinema ou do imaginário popular.

 

 

“…As bonecas podem ser confeccionadas com diferentes materiais”- frase interessante esta não!? Como dito nos primeiros episódios, somos loiras, morenas, ruivas, negras, brancas, japonesas…etc…e em qualquer país, a história é a mesma.

-“Vou brincar um pouquinho com você, tudo bem? Afinal,você é tão bonitinha, enfeitadinha!”

Meu Ego estava lá, e eu, em lágrimas:

-“Eu te avisei, hein!? Você pensa que milagre existe, minha filha?!”

-“Não me chateie com esse “eu avisei a você”….pois você bem sabe que poderia ter me ajudado!”- disse, enxugando as lágrimas.

-“Ah, tá…quem foi que te mostrou aquela loira no meio da pista, do lado dele?…Vendo aquilo, estava na cara que o cara não tinha mudado, e continuava sendo o mesmo patife de sempre! O cara, no teu aniversário, dando em cima de outra?Pára! Caso gostasse de você, jamais faria isso. É coisa de cretino, cafa…!E você não merece isso!”

-“Ah, mas eu não enxerguei, não estava de óculos…ajuda assim não preciso!”

-“Eita, você estava de lente desta vez?…”

-“Mas quase nunca uso, me irrita os olhos…só uso em situações excepcionais!”

-“Quer mais excepcional que o seu aniversário!?”- falou meu Ego, apontando para a caixinha de lentes no banheiro, ainda entreaberta devido ao recente uso.

Eu, certamente, estava usando lentes na noite do meu aniversário, mas diante da realidade vista, preferia me cegar a perder o meu reino conquistado.

Tempo!

-“Porque? Porque?…Tem algo de errado comigo, pois não consigo arrumar um cara legal!”-perguntei, ainda em lágrimas.

-“Não há nada de errado em você, e também não é nada errado ser uma solteira balzaquiana!…Dê uma banana aos padrões e siga a sua vida!”- disse o meu Ego, acariciando meus cabelos, protegendo e aliviando-me de todo o mal que sentia.

 

Momento DEFINA:

 

Padrão: O Vocabulário Internacional de Metrologia define padrão como Medida materializada, instrumento de medição, material de referência ou sistema de medição destinado a definir, realizar, conservar ou reproduzir uma unidade ou um ou mais valores de uma grandeza para servir como referência.

 

Idéia inexata!

Reflitamos em cima do expoente lido acima: “...reproduzir uma unidade em um ou mais valores de uma grandeza para servir como referência!”…

Quem foi o primeiro que começou com isso tudo? Claro, porque se o Padrão surgiu, é porque alguém inventou. É certo que em algumas coisas, o criador burro-inteligente do padrão acertou, afinal, hoje temos geladeiras, comidas, casas, e uma privada para  defecar e dar descarga. Ah, e ninguém faz cocô na rua, porque é feio e fedido, exceto os mendigos, que mal enxergam um palmo diante de seus narizes. E também alguma ordem é prevalecida pois a monogamia é lei(exceto em alguns países que ainda usam leis dos tempos das cavernas, e claro, no mundo todo, pois o chifre rola na cabeça de muitos. Mas, é disfarçado e isso mantém uma aparente ordem. Do contrário o mundo seria um circo!)..Vontando…Além da ordem prevalecida, os bons costumes como lavar as mãos, comprimentar o padeiro com um sorriso e dizer que não estava em casa e por isso não atendeu o telefone só para ser educado, sendo que estava sim em casa, só que não queria atender tal pessoa, etc… trazem um pouco de organização ao mundo da bicharada que é o homem e mulher.  No entanto, o criador foi também burro pois criou uma massa cega destinada apenas a seguir o que seus antecessores disseram ser o certo a fazer.

Mas, o que seria o certo? O que seria errado?

E se eu não quiser fazer o primeiro, segundo e terceiro grau? E se eu não quiser casar? E se eu quiser ir pra balada aos 50 anos? E se eu quiser fazer morar na rua? E se eu não tiver filho? E se eu não quiser tirar carta aos dezoito anos? E se eu quiser viver como um hippe nas praias, de “boa”, de brisa? E se eu trocar meu diploma de faculdade por uma carroça de cachorro quente? Você ainda continuará meu amigo?

Hum…os mais alienadinhos responderiam: “…hum, sai dessa fase!”- clássico de quem fez 30 anos e julga que não pode mais usar micro-saia, ou ir pra balada pegar….porque a “pegação” e seus filhos “tá ligado”, “veio” é pra criançada, e não para você. Clássico ainda para aquele que critica uma sessentona de decote, ou um velho pegando uma mulher 30 anos mais jovem, ou vice- versa…. Ou ainda, como minha prima disse, ao me ver arrumando minha pasta de papel de carta(item que coleciono desde os dez anos de idade):

- “Hum, você ainda está nessa fase? Dá pra Amandinha, nossa priminha de 8 anos!

Clássico!

Quem te disse, quem te ensinou essa coisa de FASE? Quão besta é tudo isso, hein, leitor?

Uma banana às referências!

Tempo!

Seria eu a referência de mim mesma! Sim, o mais certo.

Sou solteira, sim, e daí?…By the way, não tenho problema algum, não, viu!? Papel de carta? A-D-O-R-O, especialmente o da Moranguinho. Meus óvulos estão começando a querer entrar na reta final, mas isso é problema meu. Porque? Por acaso está faltando algum ovo em sua geladeira para a sua gemada geriátrica do dia?(hum, boa para eu falar para a Nina…risos sarcásticos). Desculpa, mas a sua dentadura pode amarelar caso coma algum ovo, porque ovo tem a sua parte amarela, e amarelo demais amarela os dentes!…Além disso, Nina, vai ser difícil você escovar a dentadura pois suas mãos já tremem, né?…E ainda, platéia, não vou traçar qualquer um só para dizer que casei, ok? Vai ter que me encarar chegando sozinha nas festas, vão ter que me engolir….(clássico comentário nas festinhas das primas ou amigos, em que todos namoram, menos você, e todos te olham meio torto, como se uma penca de bananas estivesse brilhando no topo de sua cabeça!).

(risos sarcáticos)

Não me obrigue a apontar meu dedo indicar à sua face!

….

…….

Desculpe-me leitor. É a afobação do momento-fim-márcio-vá-pra-puta-que-te-pariu!

Tempo!

Reflexão!

Idéia inexata!

-“E quanto à minha solidão, vontade de ter alguém, sair da vida de balada, transar só com um, amar?”-perguntei ao meu Ego,

-“Toda panela tem a sua tampa!”- respondeu.

-“Afe! Não me venha com clichê de livro de auto-ajuda…!”- satirizei, já sorrindo para o meu Ego.

-“Brincadeira!”- falou meu Ego, rindo.

-“E?”- insisti.

-“Ah, Agatha. Se tiver que ser, será. Curta a sua vida e pague você mesmo o seu cartão de crédito. Deixa estar! Teu princípe ainda pode aparecer. E enquanto ele não vem, curta a sua companhia e pronto! Você não precisa se enganar com qualquer um. Ter um alguém pela metade é sinônimo de perda de tempo. E você não é um brinquedo..Mostre para esse Márcio o quão nada a ver ele é, ok?”

Hum…

Boa idéia!

Idéia clara, como um copo de água.

 

Incoformada-quase-aceitando, tratei de conformar-me diante da realidade ali apresentada. O que mais eu poderia fazer? Sim, voltar ao meu “realismo déspota”, fase que estava antes mesmo  da comemoração do meu aniversário. Acredito que a data teria me feito divagar, como uma imbecil, uma palhaça em meio a um circo. Não por acreditar no Amor, pois o amor em si deve existir(será?…hum...), ao contrário do que a maré tem proposto. Mas, sim, pelo caso-Márcio, um completo dono das fábricas dos fogões experts em banho-marias. Ele deve ter outras só no cozinhamento, claro! É como um livro que li há tempos atrás, em que uma especialista em casos amorosos citou:

-“Quando ele vem com essa história de que não quer nada sério, acredite, ele não quer mesmo e não vai querer!”

É isso aí, moça das páginas! Não adianta tentar “mudar” o “imutável”. Esquece, passa reto. Caso tivéssemos tal poder, seríamos donos de qualquer coisa vista, e assim, sabemos que não somos. Milagre é coisa de deuses, mágicos, entre outras, e entidade nenhuma sou eu. Sou apenas uma Agatha, com vontades de má, mas sem muito peito para isso. Sou apenas uma mulher, que agora aos 30, tenho que me conformar que entrei para o grupo das solteironas balzaquianas…do tipo estagiário que é demitido bem no mês de sua formatura, ou aquele que termina a faculdade sem um emprego, com o corpo e o diploma só em mãos, ou ainda, como aquela que fez 40 anos sem ter filho, ou como aquela que terminou o colegial e não fez faculdade,ou aquele que fez faculdade e parou no terceiro semestre, ou como aquela loira de olhos azuis de rosto bonito porém gorda, como aquela linda, alta, mas careca, ou como aquela que ganha salário mas está sempre no negativo do banco, ou como aquela que compra uma bolsa Luis Vuitton e não coloca crédito no celular, ou como aquela que almoça salada e lancha uma barra de chocolate, ou como aquele que vai para a churrascaria, come um boi, e depois pede café com adoçante, ou como aquela que faz quinze anos, mas não dá festa nem vai para a Disney, ou como aquela que tem um super currículo, mas não tem inglês fluente, ou como aquela que é linda, profissional, mas está solteira…etc…

Refiro-me aos clichês, moldes, paradigmas, padrões, etc…que o mundo brindou aos seus bonecos e bonecas. E neste contexto, teria eu que me conformar que havia saido do padrão. Infelizmente, agora eu teria que “ouvir” o preconceito da sociedade, que estaria lá, ávida para me julgar.

-“ Nossa, como uma moça tão decente, bonita, talentosa, profissional, está solteira?!Isso, não está certo! Você não está errando em alguma coisa?”- típica frase da Nina.

Pausa!

-“Nina, seguinte… seu creme rugas 50 + AGE já acabou. Vá lá comprar na esquina, por gentileza!? Aliás, saiu no Discovery Chanel que a probabilidade de ataques do coração em mulheres com mais de cinquenta anos está aumentanto. Olha, hein? Marcou o cardiologista?”- diria eu a Nina, um dia destes, quando minha faceta mais diabólica entrar em ação.

Falando em Discovery, lembrei de um caso apresentado neste programa, sobre super-seres-humanos, sendo considerados super-seres-humanos somente após a celebração dos 90 anos de vida…vivos, claro. Traçando um paralelo, seria eu uma super-solteira?…pois se 95% do álbum de formatura do colegial já se casou ou amigou, os outros 5% que passaram a “barreira” dos 30 e que ainda são solteiros seriam considerados super-solteiros.

Hum…de chofre, uma sensação interessante: eu, uma super-solteira que chegará aos 90 anos e ganhará dois títulos no Guiness: super-solteira e super-ser-humano.

(risos sarcásticos)

Voltanto…

Planos e planos! É básico a montagem de planos e suas consequências quando somos vitimadas por uma situação desgastante. Sim, o Márcio me pagaria! Quem ele pensa ser para brincar-de-boneca comigo por oito meses, e depois, continuar com esse papinho? Básico, pois traçando um paralelo, leitora, você se lembra que quando a gente, criança, enjoava de brincar com uma boneca, nós a largávamos num canto ou na estante e pegávamos outra para brincar?…E depois enjoávamos daquela e pegávamos novamente a primeira, colocando a segunda, assim, na estante? Sim!….Idéia óbvia!

E ainda, quem ele pensa ser para me deixar em banho-maria? Por acaso tenho cara de barra de chocolate, pudim, ou qualquer coisa que se cozinha em banho-maria?

 

Momento DEFINA:

Brincadeira é a ação de brincar, de entreter, de distrair.

 

Sim, sou eu uma distração para esse típico homem do século XXI.

Hum…idéia inexata!

De agora em diante, serei mais eu, e vou provar para ele, o que ele perdeu. Feliz idéia!

Motivada pelo ódio em meu sangue, afinal, ficar na geladeira por oito meses não é brincadeira(detalhe: neste tempo todo, a idiota não se deu nem ao menos a oportunidade de conhecer outros, pois vivia em função do Marc…Macrabo!), resolvi tomar as rédeas da própria situação. Sim, agora aos trinta, teria eu saído fora dos padrões da sociedade. Uma solteirona, assim, assumo! No entanto, eu estava viva e precisava continuar.

Pronto, decidido. Iria repaginar total.

Ergui meu corpo com magnificência, como uma rainha, e me dirigi ao espelho do quarto. Fitei minha imagem, e desejava uma mudança radical. Dia seguinte, segundona braba, seria dia do cabelereiro, do regime, de roupas novas e claro, óbvio, da mudança de atitude. Fiz daquele instante uma promessa para comigo mesma, e resolvi jogar todo o lixo, logicamente, no balde do cesto de lixo. Ainda não entendo como fazemos questão de guardar tanto lixo debaixo da cama ou naquele armário da casa que nunca ninguém abre!

Primeiro de tudo, entrei nas minhas páginas do orkut e facebook. Era pra já deletar as fotos do Márcio, e ainda apagar e bloquear os seus estúpidos emails. Contato MSN Márcio, e seu nick “curtindo a vida, sendo feliz!”, também bloqueado. Era ainda tempo de colocar “solteira” total no status das páginas do perfil. Antes, eu colocava “oculto” pois sentia que estava de namoradinho. A vontade de se colocar “namorando” era tão intensa, que colocar “oculto” para mim já era meio-caminho andado. Afe! Poupe-me meu cerebelo!

Caminhei ainda para a cozinha, e me livrei dos doces, bolachas doces, chocolates, etc…coisas que eu compro e loto a geladeira só porque gosto. Ah, detalhe, os bombons na gaveta do quarto também eram passado, bem como os Boballos, chicletes que adoro mascar diariamente, às vezes uns dez(ainda bem que são chicletes e não cigarros), também estariam fora. Vou comprar Trident, sem açucar, isso sim, pois sou viciada, e caso eu não masque pelo menos uma vez ao dia, sou capaz de morrer. Ah, e chega de roer unhas. Vou deixá-las crescer e passar um vermelhão de arrasar.  Eu, assim, emagreceria, uns cinco quilos, estaria bom..melhor, uns seis quilos, e ainda me tornaria mais bela, mais selvagem.

Hum…vermelho! Vermelho nas unhas e luzes no cabelo! Decidi mudar!

Idéia inexata!

E este visual, hein? Como torná-lo outro? Sim, fim às calças preta-de-plantão, pois quem dá plantão para mim é médico, e de médico quero distância(afe, o Macabro é médico), a menos que eu apareça com uma infecção transmissível ao ar e assim, tenha que ser isolada em quarentena. Ou melhor, a menos que eu entregue o corpo do Márcio para algum médico legista passar o atestado de óbito. Chega de plantão e de calça preta, pois com a bunda menor, quero mais é exibir meu corpitcho em vestidos curtos. E chega de tão básico retrato! Quero mais é aparecer, e quando o Márcio me vir na balada, afe, vai desmaiar de emoção, e eu assim, o desprezaria, como um vampiro despreza água-benta, como minha irmã despreza peixe ou como diabo foge da cruz. E aí eu pisaria em sua face e a deixaria lá, ensanguentada, no meio da pista. E assim eu beijaria TODOS os outros homens, provando para ele que era ele o meu boneco, e não eu a sua boneca!

(risos sarcásticos)

Como um general em um plano de guerra, entrei em ação naquele mesmo instante. Peguei meu celular. Ah, tratei antes de apertar o DELETE no número do Márcio. Não queria correr o risco da tentação, tão pouco ficar na expectativa de ver seu número em minha bina. Detalhe, era também a hora de me desnudar frente ao público.

Ei platéia, veja a do momento: “namorei” por doze horas( tempo entre o dizer às garotas e voltar atrás), mas está tudo bem, hein?A macaquice foi feita, o mico nasceu e é meu, mas vou arrumar uma maneira de desmacacar a situação.

Disquei para a Van…

EPISÓDIO 10

 

Segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado, domingo….tudo isso x 4= dias e dias, noites e noites em casa, sem ir para a balada, nem nada, só trabalho. Eu era fossa total! Causei até mesmo espanto na minha família, a ponto da minha pequena irmã chegar com um comentário como se estivesse vendo a  cena mais inédita em sua vida, ou tivesse ganhado na loteria, ou seja, como se tivesse visto a personificação do Impossível, ali, bem na frente dela.

-“Sábado à noite, você, você, justo você, aqui em casa, deitada!?”- comentou ela na porta do meu quarto, de oculinhos na testa, com um livro do Marcel Proust nas mãos, exibindo um semblante de susto a lá Bruxas de Blair.

Detalhe: a cena era de se espantar mesmo, pois eu, uma baladeira assumida, estava quebrando o Código Principal dos baladeiros de plantão: estava em casa, sábado à noite! Pude vislumbrar, neste instante, eu, em um tribunal de júri, sendo julgava por uma bancada inteira formada por freqüentadores viciados pelo cenário boêmio.

-“Falemos agora, a sentença!”- falou o juiz.

-“Declaro a ré culpada!”- clamou o coro vindo do corpo dos jurados.

-“Não! Me perdoem. Juro não mais quebrar o código. Mas, não teve jeito!”

-“Culpada! Culpada! Culpada!”- esbravejou a bancada, atirando-me litros e litros de vodka e tequila vencidas como penitência.

Tempo!

Idéia inexata!…

E novamente, segunda, terça, quarta, quinta….Sim! Iria começar o final de semana cedo, logo na quinta…Porque não? Costumo sair às sextas e sábados, mas a quinta me soou inspiradora. Acordar cedo para o trabalho no dia seguinte? Teria, mas não morreria disso. By the way- à propósito, ninguém chegou a morrer de sono, literalmente falando.

Balada! Balada! Balada! Sim, iria voltar ao ritmo flash back. O ritmo-groove anos 80 em meu corpo começou a ferver. Fim ao cobertor, ao pijama usado em tempo integral no fim de semana, às taças de vinho chorosas e aos DVDs de filmes de terror. Sim! A quinta veio com tudo, e a produção prometida dias atrás também. As luzes foram feitas pela manhã(detalhe: folguei do trampo neste dia), e as roupas, compradas no shopping à tarde. Peso? O mesmo? Sim e não, aliás, engordei um pouco. Comi muito chocolate deitada na cama, lembrando do Marc..Macabro. Semanas atrás, em um ataque de fúria, me livrei dos bombons, mas os comprei dia seguinte.

(risos sarcásticos)

Mas, calma, leitor, foram só três quilos, nada que me transformasse em um elefante ou em uma baleia assassina. A calça preta(peguei ela de volta pois minha pança não cabia em outra coisa, e nem nesta deu) não fechou o zíper, mas felizmente, à tarde, eu havia comprado um vestido soltinho, tipo-preto-básico, e assim, eu não iria pelada para a balada. Ora bolas!

O peso estava na balança, e meu Ego me fitava, só com aquele centímetro em mãos. Entretanto, os cabelos eram novos, a roupa, e principalmente, meu interior. Balada! Balada! Balada!

Ansiava ainda para exibir meu novo visual. E caro, leitor, cumpri 70% das minhas promessas em me repaginar, começar do zero, nascer de novo. Nascer de novo? Exagerado não? Não…de forma alguma, pois eu tinha me apaixonado demasiadamente por aquele cara-de-balada, e quando nos apaixonamos, pertencemos a outro mundo. E quando voltamos ao nosso cenário-de-sempre, o retorno é doloroso, porém empolgante, como uma água gelada ingerida ao final de uma maratona. Os primeiros instantes são de negação. Óbvio, tipo super básico! Inventamos qualquer história no intuito de nos afastarmos da real, desde que o cara não ligou porque foi atropelado por um caminhão ou até mesmo a aceitação-ridícula da clássica frase do término-disfarçado:

-“Olha, linda, eu te acho o máximo. Mas, eu estou me envolvendo demais, e por isso, acho melhor pararmos por aqui. Você merece algo melhor do que eu!”- dizem, eles.

Tradução:

-“Olha, gostosa-que-enjoei, eu não te acho tão máximo assim. Eu enjoei de você, e por isso, acho melhor eu procurar outra. Você não me merece. Eu mereço outra e quero coisa melhor do que você!”

Refletindo, caro leitor, ainda lançarei um projeto do dicionário-on-line-verdade. Ficaria rica, deveras famozérrima. Não me refiro ao on line da internet, com a explosão MSN, item que todo mundo tem hoje em dia. Mas, sim, o on line da vida, em tempo real, em que tal dicionário e suas revelações nos livrassem dos micos em geral.

Fato que não tive, no caso do Márcio…Mar..macabro.

Continuando….

Os dias se passaram, e enfim, o temperamento pérfido da negação se foi. Enfim, finalmente, e todos os adjetivos ligados ao término de um capítulo! E com essa etapa superada, caro leitor, ficamos livres da tentação-ligação. Do tipo, “…preciso ligar para ele, ele deve estar com saudades de mim!”…. Esquece! Se o cara não te ligou até agora, e foi ele que terminou, é melhor você cortar o fio do telefone com uma tesoura a ficar esperando o aparelho gritar, te fazendo até tropeçar no tapete em razão da imensa ansiedade em atender o telefone. Ou ainda:  “…preciso pegar algumas coisas que deixei com ele, como minha escova de dente e meu fio dental. Por isso, vou ligar!” By the way, por R$ 1,99, você consegue escova de dente e fio dental em qualquer canto que exista e permita farmácias e drogarias em suas ruas. Pára! Por acaso tua escova e fio são feitos de ouro, que a impedem de comprar outros na farmácia da esquina? Hum, a fábrica de tais itens não fechou, não vai fechar e nunca fechará.

Esquece um! Esquece dois! Esquece três!

Os dias correram, e não liguei para o dito cujo. Término? Sim, havia ocorrido. Hum…deveras NÃO! Ele não havia terminado comigo, pois nem tínhamos começado nada, nunca, somente uma repetitiva seção de ficadas na balada, somadas a doses de sexo e a clássica frase “...ainda não estou pronto para um compromisso, mais eu te adoro…!” Ou seja, ele, ao dizer a frase, terminava comigo todo o dia. Só que desta vez, preferi ouvir uma última vez e pronto.

Reiventar-me! Voltar pra balada, com tudo! Nossa, sentia-me muito na “pegada”, do tipo: “…tô que tô hoje!”….Nunca havia tanto gostado da sensação de ir pra balada. Iria começar tudo de novo, dançando, e dançando muito, coisa que A-M-O fazer.

Telefonar? Ele? Sim, telefonou algumas vezes em um mês longo de depressão. Mas, fui forte como uma rocha, não atendi. Detalhe: apaguei seu telefone da agenda, mas a bina apontou um número, e é óbvio, tipo básico, que tal número 666 do Marc..Macabro estava impresso em meu cérebro, como um jornal à venda na banca da avenida. Sim, caro leitor, fui forte feito um pedaço de madeira, daqueles bem duro e inquebrável. Para que eu atenderia?Aí, eu cairia na tentação, o encontraria, ficaríamos e tudo mais, e novamente aquele ciclo diabólico beijar-transar-não-quero-nada-sério-enrolação continuaria, firme e forte. Não! Foi preciso um basta, e assim, consegui…Ser sua boneca novamente, Marc…NUNCA! Vá brincar de playmobil com seus amiguinhos frouxos. Paga uma prostituta, e aí, você nem vai precisar dessa tua lábia patética. Não serei mais sua boneca!

Bingo!

Faria dos homens, os meus bonecos!

Tradução:

Agatha: a boa com vontades de má…Hum!Melhor: a má com vontades de má e realizações de má. Sim! Homem atual: TODOS, absolutamente todos! Personalidade? Selvagem, como de uma leoa à caça. Baladas: TODAS….. Drinks: TODOS…..TEQUILAS: TODAS…E me mande uma agora mesmo, pois quero começar o esquenta.

……

Idéia clara!

Uma nova Agatha!

Continuando….

As garotas-mulheres-bonecas já me esperavam na porta. Faziam um esquenta na pracinha. E eu, já levava uma garrafa de tequila. Sim, tomaria a garrafa toda e a Tequila marcaria meu grande retorno.   A bebiba, super forte,  não era uma das minhas preferidas, mas quando queríamos botar-pra-quebrar logo de cara, era a tequila a nossa anfitriã, a nossa hostess.

Tequilas, tequilas, tequilas, tequilas!

Claro, tínhamos que tomar umas antes de entrar, sempre….E no aquecimento, todas estavam muito ansiosas para o meu grande RETORNO ao mundo-dionísíaco-baládico. Afinal, 30 dias sem balada para quem é baladeiro é essencialmente uma quebra do Código, o rompimento da veia do coração, a falta de comida no mundo ou o esvaziamento do Oceano Atlântico. Era como um evento, um Carnaval fora de época ou um Natal no meio do ano. E eu, de vestido, de luzes no cabelo e muita maquiagem e decote(comecei a usar mais decote agora), entrei no carro, toda perfumada, toda empolgada.

-“Hoje, eu vou beijaaaarrr muitoooooo!”- gritei para mim mesma, em voz alta, sorrindo, no carro, ao som do clássico anos 80.

 

Been working so hard
I’m punching my card
8 hours for what?
Oh tell me what have I got
I got this feeling
That time’s just holding me down
I’ll hit the ceiling or else I’ll tear up this town
CHORUS:
Now I gotta cut loose, footloose
Kick off your Sunday shoes
Please Louise hold me off of my knees
Jack, get back
Come on before we crack
Lose your blues everybody cut footloose
Everybody cut, everybody cut
Everybody cut, everybody cut
Everybody, everybody cut footloose

 

 

Tempo!

Gritei, cantei e dancei, ao mesmo que dirigia. Sim, sentia-me feliz a entusiasta a qualquer assunto relacionado à VIDA. Era bom ouvir o melhor som do mundo, era bom ter amigas, era bom ir para a balada, era bom cantar e era boa a promessa de que a noite- o meu super retorno, seria algo absolutamente incrível. Trinta anos? Sim, claro? E naquela noite, beijar, mexer e beber era pouco! Eu queria o Mundo e tudo mais! Fim ao cemitério-macabro!

-“Oi, bonecas lindas!”- cheguei, rebolando, ao encontro delas.

As três fizeram caras de aparição…as três, as mais lindas bonecas da noite: Cristina, Vanessa e Flavinha.

-“Nossa, que saudades amiga!”- falou a Vanessa, me abraçando.

-“Isso, você voltou para a nossa morada. Estávamos doidas sem você nestes quatro últimos fins de semana!”- comentou a Flavinha, me dando um beijo.

-“Nem quero saber mais disso, hein? Hoje, você vai aproveitar essa balada horrores!”- naquele agora, a  Cris.

-“Ai, gente, nem acredito que fiquei sem sair tanto tempo. Afe…por conta de um macabro….!”- falei, super excitada com a noite estrelada.

O tempo estava ótimo, lindo, e as estrelas noctívagas dançavam ao meu favor.

-“Nossaaa, e você está super sexy, hein!?”- disse a Van, fitando meu decote- “…queria muito ter ido às compras com vocês hoje, mas não deu…mas seu visú ta show. Vai botar pra quebrar, e ainda vai transar!”

Nós três ríamos.

-“É, pode crer! Vou usar e abusar!”

-“Menina, tinha cada roupa linda hoje na loja…e é claro, escolhemos as mais decotadas!”- comentou a Cris.

-“Até eu que não curto roupa muito aberta estou achando você uma delíciaaa!”- disse a Flavinha, tirando um barato-de-boa comigo para levantar a minha auto-estima.

Idéia feliz!

-“Mas, vamos combinar?”- falei, tomando um gole da bebida tequila- dose do esquenta-balada- “Não quero nem ouvir falar do dito cujo!”

-“Claro, hoje o papo macabro nem rola…esquece..hoje é dia de festa!”- Van.

-“Só tenho muito, mas muito medo dele vir hoje aqui…O cara sempre está aqui…mas, bem que os anjos poderiam me dar uma ajudinha de mandar ele pra puta-que-pariu, não?!”

-“Amiga, esquece!”- falou a Van, acendendo um cigarro(ela aproveitava para já fumar, pois a lei do cigarro-não-balada a irritava)- “O cara nem estava aqui semana passada!”

-“É, o idiota não estava. Eu ia te contar, mas como você não perguntou, preferi ficar na minha e não te aborrecer!”

-“É, ou seja, ele também pode não vir hoje!”- Flavinha.

-“Mas, se o cara aparecer, você está muito linda, sexy, ele vai correr atrás e pronto, você bota ele pra correr!”

-“É, boto mesmo….eu pensei em mudar de balada e tal, mas se minhas amigas vêm pra cá, e seu eu amo aqui, nem…não vou mudar minha balada por conta de um idiota que se acha o tal!”- disse, tomando outro gole.

Ao mesmo tempo em que conversávamos, avistamos os irmãos gêmeos caminhando em nossa direção. Marcos e Jean, os gêmeos de 31 anos, fanáticos pela balada groove-anos 80 de toda a noite. Como dito, o Marcos era caso-balada-fixo da sexy Vanessa. Já o Jean, eu já tinha beijado uma vez, mas nunca rolou nada mais que isso. Em uma noite dentre tantas outras, depois daquela bebedeira, eu o beijei por beijar. Só tinha cara-monstro na balada, e ele estava no bar, todo solto, disponível, e cheio de olharzinho para cima de mim. Rolou um amasso, e nada mais!

By the way/à propósito, os gêmeos, nascidos e crescidos na Itália e que vieram ao Brasil na adolescência, integravam o grupo dos estão-sempre-lá na balada. E de tanto nos cruzarmos nas pistas de flash back, nos tornamos conhecidos, a ponto de trocarmos telefones, ou ainda, compartilhar o mesmo esquenta na porta da balada. Eram eles caçadores natos, detendo cada um, uma lista vasta de bonecas. E a Van, era uma delas, claro! Mas, ela não se importava. Na falta de um beijo, que seja tu que pelo menos beija bem. E vamos logo com isso, pois são já duas e meia da madrugada. Não digo que a Van não o tivesse curtido um dia. Sim, fissurou por um tempo, mas no óbvio comportamento-cara-de-balada protagonizado pelo moço que veio ao mundo em forma dupla, minha amiga caiu fora, e passou a usá-lo também como um boneco da noite. Uma brincadinha aqui, outra ali, e depois, volta pra estante e fica lá um tempo.

-“E aí, mulherada, como estamos hoje, hein!?”- falou o Marcos, dando um selinho na Vanessa, já agitado. Era o mais extrovertido dos gêmeos idênticos.

-“Ai, hoje vai lotar isso aqui. Já tem fila, olha!”- comentou a Flavinha, depois de todas nós três  trocarmos um beijo de bochecha nos rapazes.

Entramos!As bonecas ao lado dos bonecos!

Fila? Nunca…somos estrelas aqui. Deixe a ralé gastar sola de sapato e ponteiro do relógio à espera do aval das portas. Deixe para os servos, plebeus, tal condição, por que quem é rei ou rainha, está sempre na condição de majestade. E assim éramos! As bonecas! As rainhas! As quatro mais famosas de lá!

Bebida? Já tinha algo no cérebro. O mundo exterior já se mostrava em alto relevo por conta do álcool no sangue. E que colorido, hein? Nossa, tem muito gato na fila…é….

Excitadas? Totalmente, afinal, era noite de festa.

Gelei um tanto na entrada. Sentia medo de encontrar o macabro, afinal, qualquer semblante dele poderia estragar minha noite. No entanto, foi passageiro. Sério mesmo! Passageiro. Naquela noite, de gelo eu só queria era ter muito no copo, mas desde que claro, óbvio, tipo básico, fosse lotado de vodka com morangos. E caso ele estivesse lá, pois também integrava o grupo dos estão-sempre-lá, mandaria a ele uma banana, sinônimo do meu total desdém.

Idéia inexata!

Tempo!

Na entrada, Pet Shop Boys, clássico dos anos 80, nos ensurdeciam para o mundo lá fora. Nada mais existia, a não ser a vontade maior de se conquistar a noite bem-vinda. E de cara, antes da chapelaria, o banheiro era básico. E lá, já estava a Celeste, desta vez, sem a filha, arrumando o cabelo e o decote.

-“Oiii garotas!”- falou, bonitona, de cabelos compridos e vestido justo.

Um luxo de mulher ela estava! Despedida da história do medo da velhice na balada e da necessidade de achar o tal grupo para curtir a noite de sábado no futuro, ou seja, eu, agora desapegada do papo-casamento, vi a Celeste de modo distinto naquela noite. Sim! Que gata aos 49 anos! Vou ficar como ela. Tudo em cima, de bem com a vida, e ainda, pegadora, muito pegadora.

-“Celeste, cadê sua filha?”- perguntou a Vanessa, olhando para o espelho.

-“Neném nem veio, foi dormir na casa do namoradinho!”- respondeu, sorridente, viva, feliz.

-“Ah, ela está namorando?”- indagou a Flavinha.

-“Mais ou menos. É um carinha da faculdade..rolinho da minha menina!”

-“Hum, pelo menos é um cara fora da balada né? Pode dar certo!”

-“É, mas todo o lugar é lugar para você conhecer um cara legal!”- falou a Flavinha, uma das lendas, novamente, exaltando sua história de conhecer e namorar sério um cara de balada.

-“Ai, nem me venha com essa!”- eu disse, irritada-light, ou seja, furiosa mas ao mesmo que amigável.

-“Sério gente, aqui ou lá fora é lugar para conhecer gente. E nem tem muita diferença acho. Todos agem da mesma forma!”- falou a Cris.

-“Nem, sei, só sei que estou fora de homem de balada. Depois do macabro, quero mais que estes caras se explodam. Sério, da balada, nunca mais vou levar alguém a sério!”

-“Linda, esquece, curte a noite. Beija muito porque a vida passa, a vida é curta!”- Celeste.

Claro, tipo básico, óbvio, inevitável. A bonitona-agora-exemplo Celeste tinha soltado uma de suas pérolas, uma de suas marca d´águas.

Tempo!

-“Gente, deixei minha filha com o pai dela hoje. Nossa, brigamos feio. Foi meio chato!”- comentou a Van.

-“O que houve?”- perguntou a Celeste.

-“Muito cara de pau. Ele está namorando e disse que vai viajar com a namorada e ficar um mês fora. E a minha filha?”

-“Meninas, homem é filho da puta mesmo. Nada! É só pra usar!”- falei, super certa, como se eu tivesse descoberto a maior verdade de mundo. Estava eu até o pescoço com essa história de homem e suas jogadinhas.

Um batom a mais, um cabelo, um vestido….ainda no banheiro. Oito minutos haviam corrido.

-“Deus, só tem cara gato hoje nessa fila. Nossa, todo mundo vai se dar muito bem!”- comentou a Flavinha, arrumando a gravatinha.

-“Isso é verdade! Ainda bem, pois nossa, hoje não tem pra ninguém. Só para mim!”- disse.

No bar, cada uma com copo na mão, tequila, ice, vodka e champagne, o brinde foi feito, como um grito de guerra. O crime começou!

Dancei e dancei! Um carinha não parava de me olhar. Mais dança, dança! By the way/ à propósito, ele me olhava desde a entrada. E continua…hum? Seria a minha presa número um?

Dança, dança, e o carinha ao meu lado, no meio da pista, fazendo charminho. E claro, eu correspondia. Marcio? Morto? Deveras não, mas sim, na geladeira. Fiz questão de botá-lo lá. Tomara que congele a ponto de ser seqüestrado por um urso polar! Melhor, fiz questão de colocá-lo na estante(como ele fazia comigo). Deste (agora) boneco, não quero mais nada, e só vou pegar para pisar, distroçar suas perninhas, bracinhos e cabelos. (lembra quando na infância cortávamos os cabelos da Barbie ou desenhávamos de caneta preta em sua cara de plástico?)…..risos sarcásticos….boa idéia para fazer com o macabro.

Tempo! Tempo! Flash back, dança, tempo! O carinha lá, ainda a me fitar.

Bingo!

Curti! Iria beijar!…Ele vinha em minha direção, e eu claro, com olhares de selvagem-fatal.

-“Minhas luzes devem estar fazendo um super efeito quando a luz bate!”- pensei, olhando para o pisca-pisca, ao mesmo que para o novo mocinho, bonitinho, charmosinho, hum…iria beijar.

De chofre, a um metrô do encontro do novo rapaz, fui tocada pelos ombros, de costas.

Virei!

Advinha quem era?

Sim , leitor, o Marcio…Marc…Macabro.

E…

 

EM BREVE, NOVOS EPISÓDIOS!